As letras hino

Vim compartilhar com vocês a letra de Perfeição, da Legião. Parece que foi escrita ontem

2020.08.09 19:45 artur-fernand Vim compartilhar com vocês a letra de Perfeição, da Legião. Parece que foi escrita ontem

Sempre gostei dessa música, que é um pouco esquecida. Galera lembra de pelo menos meia dúzia de músicas da banda antes de lembrar dessa.
Tava prestando atenção na letra, e fiquei meio chocado em como ela é atual. Escutem aí, prestem atenção e fiquem espantados vocês também. Ela foi lançada em 1993 aliás.
Destaquei os pontos mais bizarramente atuais
Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção
Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha, que o que vem é perfeição
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2020.01.22 04:47 OneTickEat Me levaram para uma prévia do carnaval

Foram anos morando fora e, agora que voltei à minha cidade natal, a checklist de coisas a fazer é imensa. Quero recuperar tudo o que eu ainda não fiz por aqui.
As minhas novas amizades resolveram me convidar para a Troça Anárquica. O que eu ia fazer por lá? Sou introvertido demais para carnaval. Mas, como isso estava na minha lista, fui com tudo. Só a roupa do corpo e o trocado para o ônibus de ida e volta pra Olinda. E para o litrão.
“A primeira vez que a gente vai numa troça, fica sem saber como agir”. Me disseram isso. Disseram logo pra mim! Aí é que eu fiquei ansioso mesmo. Já demorou bastante até eu me ambientar em festas de eletrônica e aprender a dançar, então provavelmente a primeira vez em Olinda não seria tão legal.
O estandarte roxo da Troça vinha descendo a rua na minha direção, junto com as outras bandeiras. E embaixo deles as pessoas pulavam e cantavam, seguindo uma banda. Pulamos para o meio do povo, e foi quando a banda começou a tocar: Voltei, Recife! Foi a saudade que me trouxe pelo braço
E foi aí que eu me encontrei. No primeiro verso já estava cantando e pulando com todo mundo. Mesmo sem treinar, o frevo saiu de mim como se estivesse esperando nos meus pés até agora. Cantei o Hino dos Batutas de São José, o Hino de Elefante de Olinda, Anunciação e tudo o que os trompetes e tubas comandavam. As letras das músicas que eu ouvia pelas ruas enquanto era criança estavam gravadas na minha cabeça. Vi amigos de infância na multidão, subi e desci as ladeiras e me espremi entre pessoas que não conseguiam tirar o sorriso do rosto.
Todos esses anos eu pensei que não sabia me divertir. Que nada. Eu só estava no lugar errado!
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2019.12.24 15:04 MinistroPauloCats O Bolero Venceu o Comunismo

Ironicamente, enquanto o Vietnã do Norte venceu a guerra, é a música "amarela" do Sul, proibida pelos comunistas, que os vietnamitas adoram.

Nos últimos anos, desfrutar canções de bolero escritas antes de 1975 de alguma forma se tornou moda no Vietnã. Um número crescente de jovens ouvintes recorre a esse gênero de música em ritmo lento como uma liberação emocional. Muitos cantores novos escolhem o bolero para iniciar suas carreiras. Alguns cantores cujos nomes são conhecidos por outros gêneros musicais começaram a cantar bolero para agradar seus fãs.

Esta não é apenas uma moda. Faz parte de uma história não contada de 60 anos.

A música moderna do Vietnã nasceu nos anos 1930 e cresceu rapidamente como uma mistura de elementos ocidentais e música tradicional. Teria sido uma jornada deliciosa sem o ponto de virada: a guerra de 9 anos contra a França, que eclodiu em 1946.

O governo do Vietnã, com sua típica postura dos países comunistas de drasticamente moldar uma cultura da classe trabalhadora, começou a mostrar seu ódio pela poesia e música românticas e emocionais. Sentindo-se oprimidos, alguns artistas que costumavam favorecer o Viet-Minh decidiram deixar a zona de guerra e retornaram às cidades, entre as quais Pham Duy e Thai Thanh, o maior compositor e diva vietnamita do século XX.

O ódio piorou depois que a guerra com a França terminou em 1954. Os Acordos de Genebra resultaram na primeira migração em massa de cerca de um milhão de pessoas do norte para o sul, na qual houve verdadeiros talentos que mais tarde se tornaram famosos. Entre os compositores românticos que ficaram em Hanói estava Van Cao, autor de muitas baladas famosas antes da guerra e, especialmente, autor do hino da República Democrática do Vietnã. Ele praticamente deixou de compor desde então.

Durante a próxima guerra - a Guerra do Vietnã - o gênero oficial de música permitido por Hanói foi a música revolucionária ou vermelha. O conteúdo dessa música era para homenagear líderes, o partido comunista e apoiar a produção na retaguarda e a guerra no front. O ritmo era geralmente rápido, e a melodia era veemente. Algumas músicas eram emotivas, mas em geral não eram incentivadas.

Não havia indústria de entretenimento ou música no norte, pois os cantores trabalhavam para unidades administradas pelo estado, civis ou militares, e eram pagos como funcionários públicos. A gravação e transmissão eram monopólio estatal, principalmente através da rádio Voice of Vietnam. O lançamento de música para fins comerciais ficou para a imaginação.

Abaixo do paralelo 17, ao contrário, a música ganhou outra vida. Desde o final da década de 1950, as músicas eram escritas principalmente usando os ritmos bolero, rumba e habanera. Em combinação com a música tradicional do sul, nasceu um gênero de música peculiar ao Vietnã - lento e triste. Com letras simples, mas poéticas e significativas, as músicas diziam muito sobre a vida: família, país, tristeza, felicidade, mas mais significativamente: guerra e amor.

Notavelmente, canções anti-guerra também foram aceitas, elas coexistiram com as canções em homenagem aos soldados da República do Vietnã. No entanto, não havia tais canções no norte para homenagear o presidente ou seu partido.

Além disso, a indústria da música cresceu no sul com muitas gravadoras e palcos musicais que, em duas décadas, introduziram no mercado centenas de cantores, muitos dos quais se tornaram lendas do bolero: Thanh Thuy, Hoang Oanh, Phuong Dung, Thanh Tuyen, e Che Linh. Esses cantores são famosos desde o início dos anos 1960 e ainda estão cantando.

Não está claro a partir de que ponto a música do Vietnã do Sul começou a ser chamada de música amarela. O motivo pode ter origem na bandeira nacional amarela da República do Vietnã, em oposição à vermelha adotada pela República Democrática do Vietnã.

Durante a guerra, era compreensível que a música amarela não fosse permitida no norte. Mas depois de 1975, quando o Sul foi derrotado e o Vietnã unificado, ela ainda não era permitida, pois era considerada um vestígio da antiga sociedade. Houve campanhas de propaganda para desencorajar o público de ouvir música amarela. No auge da repressão, os flagrados ouvindo música amarela eram punidos, e suas cassetes, discos e pautas de música confiscadas.

Apesar desse controle, a música amarela, cujo principal componente era o bolero, ainda era secretamente cantada por cantores do sul que não deixaram o Vietnã (ou não tiveram a chance de fugir) e pelos próprios ouvintes. A indústria da música foi morta, mas a música continuou viva.

Após a queda de Saigon e até meados da década de 90, ocorreu a segunda migração em massa do povo vietnamita. Os refugiados, conhecidos como povo dos botes, tentaram fugir do Vietnã em busca de liberdade. A música amarela os acompanhava a muitos cantos do mundo, especialmente aos Estados Unidos, a segunda terra dos vietnamitas anticomunistas. A música amarela continuou a ser cantada por cantores anteriores a 1975 e passou para as próximas gerações. As pessoas sobreviveram e a música também.

No Vietnã, depois de 1986, o controle do estado sobre a cultura em geral e a música em particular foi diminuído. A música amarela não era oficialmente permitida, mas não era mais banida. Na década de 1990, quando mais músicas de amor foram autorizadas a serem cantadas e compostas novamente, algumas músicas amarelas neutras também foram aceitas. Às vezes, os nomes dos compositores foram alterados, mas a música permaneceu.

Mesmo antes do amplo uso da Internet, embora proibido, os produtos musicais dos refugiados vietnamitas, como as séries Paris By Night e Ásia, encontraram seu caminho de volta para casa sob o novo nome: música do além-mar. Curiosamente, o governo se desviou de um controle rigoroso para um tipo de subsídio de fato. Mas a maior parte do legado musical do Vietnã do Sul, mesmo nos dias de hoje, permanece em silêncio e no escuro: as músicas são revisadas lentamente e aceitas uma a uma, a pedido de um comitê estadual de artes.

Nos últimos anos, a mudança tem sido dramática, pois muitos cantores estrangeiros recebem permissão para retornar e se apresentar no Vietnã. Cantores nacionais mais jovens começaram a recorrer ao bolero e o público se tornou mais jovem e não limitado a uma determinada classe. Cantar e ouvir música pré-1975 parece ter se tornado moda no Vietnã.

Além de poderem se apresentar, também existem reality shows chamados Solo com Bolero e Bolero Idol - competições em busca de talentos nesse gênero musical, uma vez banido. A maioria dos juízes convidados para Solo com Bolero são cantores estrangeiros, alguns dos quais costumavam ser banidos.

Ainda existem algumas restrições. O termo "música amarela" não é oficialmente usado na mídia. É intencionalmente chamado de música country, música antiga - e mais frequentemente bolero (muitas das músicas amarelas mais populares não são, de fato, bolero). Alguns cantores anteriores a 1975 conseguem obter licenças para organizar shows ao vivo em qualquer lugar, exceto a cidade de Ho Chi Minh, anteriormente Saigon.

Além do renascimento da música amarela, muitas vezes há queixas sobre a música contemporânea no Vietnã. "Lixo" e "sem sentido" são as palavras usadas para descrevê-lo. Voltando ao passado, neste contexto, existe a opção preferível. Ironicamente, é o passado do Vietnã do Sul que o público vietnamita está abraçando. A música revolucionária vermelha não é mais preferida pelos jovens ouvintes e é tocada principalmente em eventos oficiais.

Muitas pessoas atribuem o renascimento da música amarela ao fato de que ela exibe melhor as características culturais do país e está mais próxima da música tradicional. Ele fala com a alma e o coração dos indivíduos comuns, diferindo em muitos aspectos dos temas políticos da música vermelha.
Assim, enquanto o Norte pode ter vencido a guerra, a música e a cultura do Sul continuam vivas. Mais do que apenas sobreviver, ela prospera.

Dinh Duy é colunista freelancer e doutorando em Milão, Itália

https://thediplomat.com/2016/10/the-revival-of-bolero-in-vietnam/
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2019.12.24 09:19 MinistroPauloCats O Bolero Venceu o Comunismo

Ironicamente, enquanto o Vietnã do Norte venceu a guerra, é a música "amarela" do Sul, proibida pelos comunistas, que os vietnamitas adoram.

Nos últimos anos, desfrutar canções de bolero escritas antes de 1975 de alguma forma se tornou moda no Vietnã. Um número crescente de jovens ouvintes recorre a esse gênero de música em ritmo lento como uma liberação emocional. Muitos cantores novos escolhem o bolero para iniciar suas carreiras. Alguns cantores cujos nomes são conhecidos por outros gêneros musicais começaram a cantar bolero para agradar seus fãs.

Esta não é apenas uma moda. Faz parte de uma história não contada de 60 anos.

A música moderna do Vietnã nasceu nos anos 1930 e cresceu rapidamente como uma mistura de elementos ocidentais e música tradicional. Teria sido uma jornada deliciosa sem o ponto de virada: a guerra de 9 anos contra a França, que eclodiu em 1946.

O governo do Vietnã, com sua típica postura dos países comunistas de drasticamente moldar uma cultura da classe trabalhadora, começou a mostrar seu ódio pela poesia e música românticas e emocionais. Sentindo-se oprimidos, alguns artistas que costumavam favorecer o Viet-Minh decidiram deixar a zona de guerra e retornaram às cidades, entre as quais Pham Duy e Thai Thanh, o maior compositor e diva vietnamita do século XX.

O ódio piorou depois que a guerra com a França terminou em 1954. Os Acordos de Genebra resultaram na primeira migração em massa de cerca de um milhão de pessoas do norte para o sul, na qual houve verdadeiros talentos que mais tarde se tornaram famosos. Entre os compositores românticos que ficaram em Hanói estava Van Cao, autor de muitas baladas famosas antes da guerra e, especialmente, autor do hino da República Democrática do Vietnã. Ele praticamente deixou de compor desde então.

Durante a próxima guerra - a Guerra do Vietnã - o gênero oficial de música permitido por Hanói foi a música revolucionária ou vermelha. O conteúdo dessa música era para homenagear líderes, o partido comunista e apoiar a produção na retaguarda e a guerra no front. O ritmo era geralmente rápido, e a melodia era veemente. Algumas músicas eram emotivas, mas em geral não eram incentivadas.

Não havia indústria de entretenimento ou música no norte, pois os cantores trabalhavam para unidades administradas pelo estado, civis ou militares, e eram pagos como funcionários públicos. A gravação e transmissão eram monopólio estatal, principalmente através da rádio Voice of Vietnam. O lançamento de música para fins comerciais ficou para a imaginação.

Abaixo do paralelo 17, ao contrário, a música ganhou outra vida. Desde o final da década de 1950, as músicas eram escritas principalmente usando os ritmos bolero, rumba e habanera. Em combinação com a música tradicional do sul, nasceu um gênero de música peculiar ao Vietnã - lento e triste. Com letras simples, mas poéticas e significativas, as músicas diziam muito sobre a vida: família, país, tristeza, felicidade, mas mais significativamente: guerra e amor.

Notavelmente, canções anti-guerra também foram aceitas, elas coexistiram com as canções em homenagem aos soldados da República do Vietnã. No entanto, não havia tais canções no norte para homenagear o presidente ou seu partido.

Além disso, a indústria da música cresceu no sul com muitas gravadoras e palcos musicais que, em duas décadas, introduziram no mercado centenas de cantores, muitos dos quais se tornaram lendas do bolero: Thanh Thuy, Hoang Oanh, Phuong Dung, Thanh Tuyen, e Che Linh. Esses cantores são famosos desde o início dos anos 1960 e ainda estão cantando.

Não está claro a partir de que ponto a música do Vietnã do Sul começou a ser chamada de música amarela. O motivo pode ter origem na bandeira nacional amarela da República do Vietnã, em oposição à vermelha adotada pela República Democrática do Vietnã.

Durante a guerra, era compreensível que a música amarela não fosse permitida no norte. Mas depois de 1975, quando o Sul foi derrotado e o Vietnã unificado, ela ainda não era permitida, pois era considerada um vestígio da antiga sociedade. Houve campanhas de propaganda para desencorajar o público de ouvir música amarela. No auge da repressão, os flagrados ouvindo música amarela eram punidos, e suas cassetes, discos e pautas de música confiscadas.

Apesar desse controle, a música amarela, cujo principal componente era o bolero, ainda era secretamente cantada por cantores do sul que não deixaram o Vietnã (ou não tiveram a chance de fugir) e pelos próprios ouvintes. A indústria da música foi morta, mas a música continuou viva.

Após a queda de Saigon e até meados da década de 90, ocorreu a segunda migração em massa do povo vietnamita. Os refugiados, conhecidos como povo dos botes, tentaram fugir do Vietnã em busca de liberdade. A música amarela os acompanhava a muitos cantos do mundo, especialmente aos Estados Unidos, a segunda terra dos vietnamitas anticomunistas. A música amarela continuou a ser cantada por cantores anteriores a 1975 e passou para as próximas gerações. As pessoas sobreviveram e a música também.

No Vietnã, depois de 1986, o controle do estado sobre a cultura em geral e a música em particular foi diminuído. A música amarela não era oficialmente permitida, mas não era mais banida. Na década de 1990, quando mais músicas de amor foram autorizadas a serem cantadas e compostas novamente, algumas músicas amarelas neutras também foram aceitas. Às vezes, os nomes dos compositores foram alterados, mas a música permaneceu.

Mesmo antes do amplo uso da Internet, embora proibido, os produtos musicais dos refugiados vietnamitas, como as séries Paris By Night e Ásia, encontraram seu caminho de volta para casa sob o novo nome: música do além-mar. Curiosamente, o governo se desviou de um controle rigoroso para um tipo de subsídio de fato. Mas a maior parte do legado musical do Vietnã do Sul, mesmo nos dias de hoje, permanece em silêncio e no escuro: as músicas são revisadas lentamente e aceitas uma a uma, a pedido de um comitê estadual de artes.

Nos últimos anos, a mudança tem sido dramática, pois muitos cantores estrangeiros recebem permissão para retornar e se apresentar no Vietnã. Cantores nacionais mais jovens começaram a recorrer ao bolero e o público se tornou mais jovem e não limitado a uma determinada classe. Cantar e ouvir música pré-1975 parece ter se tornado moda no Vietnã.

Além de poderem se apresentar, também existem reality shows chamados Solo com Bolero e Bolero Idol - competições em busca de talentos nesse gênero musical, uma vez banido. A maioria dos juízes convidados para Solo com Bolero são cantores estrangeiros, alguns dos quais costumavam ser banidos.

Ainda existem algumas restrições. O termo "música amarela" não é oficialmente usado na mídia. É intencionalmente chamado de música country, música antiga - e mais frequentemente bolero (muitas das músicas amarelas mais populares não são, de fato, bolero). Alguns cantores anteriores a 1975 conseguem obter licenças para organizar shows ao vivo em qualquer lugar, exceto a cidade de Ho Chi Minh, anteriormente Saigon.

Além do renascimento da música amarela, muitas vezes há queixas sobre a música contemporânea no Vietnã. "Lixo" e "sem sentido" são as palavras usadas para descrevê-lo. Voltando ao passado, neste contexto, existe a opção preferível. Ironicamente, é o passado do Vietnã do Sul que o público vietnamita está abraçando. A música revolucionária vermelha não é mais preferida pelos jovens ouvintes e é tocada principalmente em eventos oficiais.

Muitas pessoas atribuem o renascimento da música amarela ao fato de que ela exibe melhor as características culturais do país e está mais próxima da música tradicional. Ele fala com a alma e o coração dos indivíduos comuns, diferindo em muitos aspectos dos temas políticos da música vermelha.
Assim, enquanto o Norte pode ter vencido a guerra, a música e a cultura do Sul continuam vivas. Mais do que apenas sobreviver, ela prospera.

Dinh Duy é colunista freelancer e doutorando em Milão, Itália

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2019.12.19 03:33 Sarieru2812 Sobre o Governo de Dom Pedro II

Encontrei este texto na aba comentarios de um video sobre a Monarquia, resolvi compartilhar...
Sou novo nesta Comunidade, será um prazer compartilhar conhecimento aqui com vcs...
Hino Nacional (VERDADEIRO): https://youtu.be/cELgENW81v4
Texto: (ESPERO QUE GOSTEM)

(1880) O Brasil teve a 4°Economia do mundo e o 9° maior imperio do mundo (1860-1889) a média do Crescimento Econômico foi de 8,81% ao ano (1880) Eram 14 impostos, atualmente são 92 impostos (1850-1889) a média da Inflação era de 1,08% ao ano (1880) O Brasil tinha a Segunda Maior e Melhor Marinha do mundo, superado apenas pela Inglaterra (1880) A Moeda Brasileira tinha o Mesmo Valor que o Dolar e a Libra Esterlina (1880) O Brasil foi o 1° da America Latina e o 2° do mundo a ter ensino Especial para Deficientes Auditivos e Visuais (1880) O Brasil foi o maior Construtor de Estradas de Ferro do mundo, com mais de 26 mil KM A Imprensa era Livre tanto para Pregar o ideal republicano quanto para mal do nosso Imperador. "Diplomatas europeus e outros Conservadores estranhavam a liberdade dos jornais Brasileiros" conta o Historiador José Murilo de Carvalho. "Schreiner, ministro da Áustria, afirmou que o Imperador era atacado pessoalmente na imprensa de modo 'causaria ao autor de tais artigos, em toda a Europa, até mesmo a Inglaterra, onde se tolera uma dose bastente forte de liberdade, um processo de Traição'." Mesmo diante desses ataques, Dom Pedro II se colocava contra a Imprensa. "A Imprensa se Combate com a Imprensa", dizia "Quanto as Opiniões Politicas, tenho duas, uma Impossivel, outra realizada. A Impossivel é a Republica de Platão. A realizada é o Sistema Representativo [Monarquia], É sobretudo como brasileiro que me agrada sobre essa última opinião, e eu peço aos Deuses (também creio nos Deuses) que afastem o Brasil do sistema Republicano, porque esse dia seria o do nascimento da mais insolente aristocracia que o sol jamais alumiou" MACHADO DE ASSIS ESCRITOR E FUNDADOR DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS .

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1- a média nacional do salário dos professores estaduais de Ensino Fundamental em (1880) era de R$8.950,00 em valores atualizados 2- Entre 1850 a 1890, o Rio de Janeiro era Conhecido na Europa como "A Cidade dos Pianos" devido ao enorme número de pianos em quase todos os ambientes Comerciais e Domésticos 3- O Bairro mais caro do Rio de Janeiro, o Leblon, era um quilombo que cultivava Camélias, Flor simbolo da Abolição, sendo sustentado pela Princesa Isabel 4- O Maestro e Compositor Carlos Gomes de "O Guarani" foi sustentado pelo Pedro II até atingir o grande sucesso mundial 5- Pedro II tinha o projeto de construção de um trem que ligasse diretamente a cidade do Rio de Janeiro a cidade de Niterói. O projeto em tramito até hoje nunca saiu do papel 6- Pedro II mandou acabar com a Guarda Chamada Dragões da Independência por achar desperdício ao dinheiro publico. Com a republica a guarda voltou a existir 7- Em 1887, Pedro II Recebeu Diplomas honorários de Botânica e Astronomia pela Universidade de Cambridge 8- Descostruindo Boatos, Dom Pedro II e o Barão/Visconde de Mauá eram amigos e planejavam juntos o futuro dos escravos Pós-Abolição. Infelismente com o golpe militar de 1889 os planos foram interrompidos 9- Oficialmente, a primeira grande favela do rio de janeiro, data de 1893, 4 anos e meio após a Proclamação da Republica e Cancelamento da ajuda aos ex cativos 10- Dom Pedro II tinha 1,91m de altura, quando a média de altura dos homens brasileiro era de 1,70m e mulheres 1,60m 11- Na Época do Golpe militar de 1889, Dom Pedro II tinha 90% da aprovação da população em geral. Por isso o golpe não teve a participação popular 12- José do Patrocínio organizou uma guarda especialmente para a proteção da Princesa Isabel, chamada "A Guarda Negra". Devido a abolição e até mesmo antes da lei do ventre livre, a princesa recebia diariamente ameaças contra sua vida e de seus filhos. As ameaças eram financiadas pelos grandes cafeicultores escravocratas 1- O Paço Leopoldina localiza-se onde atualmente é o Jardim Zoológico 2- O Terreno onde fica o Estádio do Maracanã pertencia ao Duque de Saxe, esposo da princesa Leopoldina 3- Santos Dumont almoçava 3 vezes por semana na casa da Princesa Isabel em Paris 4- A Ideia do Cristo na Montanha do Corcovado partiu da Princesa Isabel 5- a familia imperial não tinha escravos. Todos os negros eram alforriados e assalariados, em todos os móveis da familia. 6- Dom Pedro II tentou ao parlamento a Abolição da escravatura desde 1848. Uma luta contra os poderosos fazendeiros por 40 anos 7- Dom Pedro II Falava 23 Idiomas, sendo que 17 era Fluente 8- A primeira tradução do clássico árabe "Mil em uma noites" foi feita por Dom Pedro II, do Árabe Arcaico para o Português do Brasil 9- Dom Pedro II doava 50% de sua dotação anual para as instituições de caridade e incentivos para educação do ênfase nas Ciências e artes 10- D. Pedro Augusto Saxe-Coburgo era fã assumido de Chiquinha Gonzaga 11- Princesa Isabel recebia com bastante frequência amigos negros em seu palacio em Larangeiras para saraus e pequenas festas. Um verdadeiro escândalo para época 12- Na casa de veraneio de Petrópolis, Princesa Isabel ajudava a esconder escravos fugidos e arrecadava numerários para alforriá-los 13- Os Pequenos Filhos de Isabel Possuiam um Jornalzinho que Circulava Petrópolis, um jornal totalmente abolicionista 14- Dom Pedro II recebeu 14 mil votos na Filadélfia para a Eleição Presidencial, devido a sua popularidade, na época os eleitores podiam votar em qualquer pessoa nas eleições 15- Uma senhora milionária no Sul, incorfomada com a derrota na guerra civil americana, propôs a Dom Pedro II anexar o sul dos Estados Unidos ao Brasil, ele respondeu literalmente com dois "Never!" bem enfáticos 16- Pedro II fez um empréstimo pessoal há um banco europeu para comprar a fazenda que abrange hoje o Parque Nacional da Tijuca. Em uma Época que ninguém pensava na ecologia ou em desmatamento, Dom Pedro II mandou Reflorastar toda a grande fazenda de café com mata atlatica nativa 17- A Midia ridicularizava a figura de Dom Pedro II por usar roupas extremamentes simples, e o descanso no cuidado e manutenção dos palácios Quinta da Boa Vista e Petrópolis. Pedro II não admitia tirar dinheiro para tais futilidades. Alvo por charges quase diárias nos jornais, mantinha liberdade de expressão e nenhuma censura. 18- Thomas Edilson, Pasteur e Graham Bell fizeram teses em homenagens ao dom Pedro II 19- Dom Pedro II acreditava em Allan Kardec e Dr.Freud, confiando o tratamento do seu neto Pedro Augusto. Os resultados foram excelentes deixando Pedro Augusto nenhum surto por anos 20- Dom Pedro II andava pelas ruas de Paris em seu exilio sempre com um saco de veludo ao bolso com um pouco de areia da praia de Copacabana. Foi enterrado com ele ... ... Fontes: Biblioteca Nacional, IMS, Coleção Teresa Cristina, Diário de Dom Pedro II, Correspondência do acervo do Museu Imperial de Petrópolis, Biografias como As Barbas do Imperador, Imperador Cididão, Filho de uma Hansburgo, Chicl Xavier e Dom Pedro II, Cartaz da Imperatriz, Teatro de Sombras, Construção da Ordem, Dom Pedro II Ser ou não Ser, Acervo Museu Histórico Nacional, entre outros. Para mais informações do Movimento Monarquista do Brasil, visite a página no Facebook do Pró-Monarquico.
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Foi isso amigos, este é meu primeiro Post na Comunidade. Ave Império!!!
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2019.07.21 04:54 LamedVavnik Reportagem da Veja de outubro de 1968 contando um confronto entre a USP e a universidade do Mackenzie com uma fatalidade. A edição da revista é usada como código no filme Batismo de Sangue.

Olá Brasil! Achei essa reportagem à alguns anos atrás enquanto fazia um resumo do filme Batismo de Sangue para um trabalho de ensino médio. É um excelente filme que conta a história do Frei Tito, preso e torturado durante a ditadura sob acusações de ter contato com Carlos Marighella. Durante uma das cenas a edição de outubro de 1968 da revista Veja é usada como símbolo dos militantes. Fiquei curioso na época e conseguir achar uma versão online do texto, que dá uma pequena visão do panorama politico da época.
Destruição e morte por quê?
O ovo veio antes. Estourou na cabeça de um estudante. Depois vieram outras explosões, de coquetéis Molotov, bombas, rojões, mais tiros de revólver, para transformar um pedaço da Rua Maria Antônia, no centro de São Paulo, num campo de batalha. Poderia ter sido mais uma briga, marcando a rivalidade entre os alunos da Universidade Mackenzie e a Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, uma em frente a outra se encarando com maus olhos há muito tempo. Mas a incrível batalha foi longe demais: há um morto, um moço de vinte anos, muitos feridos, os prédios de duas escolas danificados, vários carros virados e incendiados. No mesmo momento em que os universitários brasileiros reclamam um nível melhor de ensino e pretendem uma participação mais ativa na vida política do País, 3.000 estudantes do Mackenzie e 2.500 estudantes da Faculdade de Filosofia da USP deflagram a sua guerra por causa de um ovo. Para um estudante do Mackenzie, "essa briga prova que não há lugar para duas escolas na Rua Maria Antônia". é muito pouco para tanta violência. Uma coisa é certa: aos dois lados faltou a visão das conseqÜências políticas e dos danos materiais que a briga provocaria - e faltaram líderes para deter a briga, antes que chegasse onde chegou. Ao lado do caixão de José Guimarães, o jovem secundarista que tombou na batalha sem glória, Dona Madalena, a mãe desolada, chora, enquanto o irmão mais velho, Ladislau, repete para cinegrafistas e fotógrafos: "Filmem e fotografem à vontade. Talvez tudo isso sirva para alguma coisa, um dia".
Paus e pedras, bombas Molotov, rojões, vidros cheios de ácido sulfúrico que ao estourar queimavam a pele e a carne, tiros de revólver e muitos palavrões voaram durante quatro horas pelos poucos metros que separam as calçadas da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Exatamente às 10 e meia da manhã do dia 2, quarta-feira, começou a briga entre as duas escolas. Porque alguns alunos do Mackenzie atiraram ovos em estudantes que cobravam pedágio na Rua Maria Antônia a fim de recolher dinheiro para o Congresso da ex-UNE e outros movimentos antigovernistas da ?ação? estudantil, a rua em que vivem as duas escolas rapidamente se esvaziou. Formaram-se grupos dos dois lados, dentro do Mackenzie, onde estudam membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), Frente Anticomunista (FAC) e Movimento Anticomunista (MAC); dentro da Faculdade de Filosofia da USP, onde fica a sede da ex-União Estadual dos Estudantes. As duas frentes agrediram-se entre discursos inflamados e pausas esparsas. Ao meio-dia a intensidade da batalha aumentou, porque chegaram os alunos dos cursos da tarde. O Mackenzie mantinha uma vantagem tática - os seus prédios ficam em terreno mais elevado e são cercados por um muro alto. A Faculdade da USP está junto à calçada, num prédio cinzento e velho, com a entrada principal ladeada por colunas de estilo grego e duas portas laterais. A fachada não tem mais que 20 metros. Seu único trunfo: uma saída na Rua Dr. Vila Nova, perpendicular à Maria Antônia, bem defronte à Faculdade de Economia, também da USP. Nessa quarta-feira, uma enfermaria improvisada no banheiro da USP atendeu a seis feridos. Dois alunos do Mackenzie também se machucaram. Na rua, os estudantes da USP apupavam os do Mackenzie: "Nazistas, gorilas!" E os mackenzistas revidavam: "Guerrilheiros fajutos!" às 2 da tarde a reitora do Mackenzie, Esther Figueiredo Ferraz, pediu uma tropa de choque - 30 guardas-civis - para "proteger o patrimônio da escola". Quando a polícia chegou, os estudantes se dispersaram. Houve uma trégua.
TODOS NA DEFESA - Durante a noite as duas escolas discutiram a briga em assembléias. E tanto um grupo como o outro chegou à mesma posição: organizar a defesa para o dia seguinte e só atacar se atacado. A assembléia da USP declarou que não queria lutar contra o Mackenzie, mas contra o CCC. No dia 3, quase às 9 horas da manhã, um grupo de rapazes saiu pelo portão de ferro do Mackenzie, correu até a entrada da Faculdade de Filosofia e arrancou uma faixa suspensa entre as duas colunas. Dizia a faixa: CCC, FAC e MAC = Repressão. E mais abaixo: Filosofia e Mackenzie contra a Ditadura. Os dizeres insinuavam união das duas escolas contra a "ditadura" e as organizações de extrema direita. Ao arrancá-la, os mackenzistas repudiavam a pretendida unidade. E para que isto ficasse bem claro, às 9 e meia tomaram mais duas faixas dos alunos da USP. Foi o fim da trégua. Novamente a pequena rua estremeceu com a explosão de rojões, bombas, tiros, vidraças quebradas por tijolos e barras de ferro. Labaredas de fogo subiam pelas paredes lambendo o rebôco e deixando um rastro negro de fuligem. Guardas civis protegiam o Mackenzie - ainda a pedido da reitora - armados de metralhadoras, fuzis e cassetetes tamanho-família. Luís Travassos e Édson Soares, respectivamente presidente e vice-presidente da ex-UNE, somados a José Dirceu, presidente da ex-UEE, comandavam a resistência da Filosofia.
TODOS NO ATAQUE - Por volta de meio-dia, centenas de curiosos e colegiais que vinham das aulas da manhã aglomeravam-se nos dois extremos da Rua Maria Antônia. Aproveitando a presença dessa platéia, os universitários da USP, com saquinhos de papel na mão, pediam dinheiro "para comprar material de guerra". Grupo de alunas de um colégio próximo subiu num monte de material de construção. Entre elas estava uma menina de quinze anos, com uniforme da quarta série ginasial do colégio "Des Oiseaux" e óculos escuros. Ficou ali quase uma hora, até o instante em que três policiais avançaram sobre um grupo de estudantes que havia lançado pedras contra eles. Um dos policiais puxou o revólver e atirou para o ar. Um aluno da USP jogou-se contra ele, de mãos abertas, forçou o braço do soldado para trás e tentou tomar-lhe o revólver. Dois outros soldados começaram a dar tiros no chão. Um estudante foi ferido na perna: Jorge Antônio Rodrigues, do terceiro ano de Economia. Foi o primeiro choque entre polícia e estudantes na quinta-feira. Um capacete de aço que tombou na luta foi levado como troféu para o interior da Faculdade. Nessa hora, a platéia debandou. A menina de óculos escuros quase levou um tombo. Era a filha do Governador de São Paulo, Roberto de Abreu Sodré. Logo depois, uma sirena gritou na rua. Os estudantes pensavam que a polícia estivesse investindo, mas era uma ambulância que ia buscar o rapaz atingido no rosto por um rojão, aluno do Mackenzie. Nessa escola, alguém ensinava como preparar bombas Molotov (segundo alguns alunos, foram atiradas mais de mil contra os estudantes e o prédio da USP). Nos rojões de vara eram adaptados vidros com gás lacrimogéneo, que iam rebentar no interior das salas da USP. Ácidos de cheiro muito forte e enjoativo eram lançados da mesma maneira. Foram instalados fios elétricos nos portões de ferro e grades do Mackenzie. Quem tocasse ali seria eletrocutado. As vidraças quebradas da USP eram substituídas por tapumes de madeira. Mas a tropa de choque da Faculdade de Filosofia havia acumulado às 14 horas um monte alto de pedras e duzentos rojões. Uma garrafa Molotov estourou sobre os fios de alta tensão que cruzavam a linha de fogo, queimou um deles, e de repente espocaram estalos e faíscas esverdeadas pela rua. Mais correria, mais gritos, mais palavrões. Do Mackenzie saíram bombas de gás lacrimogéneo que detonaram na rua e na entrada da Faculdade de Filosofia. Um edifício em construção, ao lado do Mackenzie, foi ocupado pelos mackenzistas.
DESORDEM, FERIDOS - Boatos e notícias contraditórias circulavam. A polícia invadirá as duas escolas, diziam uns. Outros negavam, mostravam-se mais sabidos: virá o Exército. "Por que seria a polícia? Se ela quisesse, já teria tomado alguma providência. Não iria ficar parada, assistindo de camarote a essa insensatez dos estudantes", dizia um velho, numa esquina. Para o General Sílvio Corrêa de Andrade, chefe do Departamento de Polícia Federal em São Paulo, todas as providências cabiam à polícia do Estado. "O que ocorre na Rua Maria Antônia é desordem, briga, e não manifestação política", dizia ele. Muitos alunos do Mackenzie feriram-se por acaso. Quando corriam por cima dos prédios para escapar das pedradas, sentiam as telhas cederem sob seus pés. Caíam então de uma altura de quase dois metros, desabando no assoalho do último andar. Um quebrou a clavícula, outro o nariz e um terceiro cobriu-se de escoriações. Por volta das 13h30 chegou um carro-tanque com seis bombeiros a pedido dos alunos da USP. Estacionaram na Rua Dr. Vila Nova e começaram o combate aos focos de incêndio que se multiplicavam pelo prédio da Faculdade de Filosofia. José Dirceu soltava frases de efeito: "As violências da direita estão sendo respondidas pela violência organizada do povo e dos estudantes", ou "Vamos esmagar a reação."
DE REPENTE, A MORTE - Perto do edifício em construção, tomado por alunos do Mackenzie, um grupo de secundaristas recolhia pedras para a USP. Na Rua Dr. Vila Nova ecoaram gritos e para lá correram muitos estudantes. Que era? Um aluno da Faculdade de Direito do Mackenzie, João Parisi Filho, halterofilista e desenhista, que teve trabalhos expostos na última Bienal de São Paulo. "Ele é do CCC", comentava-se. Cerca de oitenta estudantes da USP rodearam Parisi berrando: "Lincha! Mata o canalha!" O rapaz tinha um revólver. Tornaram-no. Depois, aos tapas, conduziram Parisi ao prédio da Faculdade de Economia da USP. (Quando à noite esse prédio foi tomado pela Força Pública, o presumível agente do CCC foi detido com os demais estudantes e encaminhado ao DOPS.) O trabalho dos bombeiros não parava. Rojões estouravam intermitentemente na Rua Maria Antônia. Súbito, defronte à Faculdade de Filosofia, um estudante com os braços abertos e quase se ajoelhando na calçada berrou: "Ambulância, ambulância, por favor". E atrás deste vieram mais rapazes carregando um jovem de cabelos pretos que tinha a camisa de linho branco tinta de sangue. Era José Guimarães, aluno do Colégio Marina Cintra, terceira série ginasial, vinte anos. Pintava nas horas vagas. Tinha mãe viúva. Ao passar pela Rua Maria Antônia resolveu ajudar os universitários. Recolhia pedras para a USP. Uma perua dos "Diários Associados" levou-o para o Hospital das Clínicas. Mas José Guimarães morreu no caminho. Na Maria Antônia ele deixou revolta e manchas de sangue. Laudo da autópsia: "A bala é de calibre superior a 38 ou de fuzil. Havia seis ou sete pedaços de chumbo no cérebro. O tiro entrou 1 centímetro acima da orelha direita e saiu à altura da linha mediana da cabeça, atrás, ligeiramente à esquerda. A bala fez um percurso de cima para baixo, em sentido oblíquo". Quem atirou? Ninguém sabe.
A BRIGA PROSSEGUE - Ao saber da morte do estudante secundário, José Dirceu subiu num monte de tijolos, cadeiras, corrimãos de escada e paralelepípedos, que servia de barricada, fez um comécio-relâmpago. "Não é mais possível mantermos militarmente a Faculdade. Não nos interessa continuar aqui lutando contra o CCC, a FAC e o MAC, esses ninhos de gorilas. Um colega nosso foi morto. Vamos às ruas denunciar o massacre. A polícia e o exército de Sodré que fiquem defendendo a fina flor dos fascistas. Viva a UNE, abaixo a reação!" Então concebeu uma nova imagem e desfechou: "Jorge, o rapaz morto, é um segundo Édson Luís (o secundarista que morreu no restaurante do Calabouço, na Guanabara). Vamos às ruas!" Com essa oratória Josá Dirceu conseguiu pôr a maioria dos assistentes em posição de passeata. "Não é Jorge, é Dionísio" cochichou uma estudante à colega. Ninguém sabia direito o nome da vítima. às 3 e meia uma janela se abriu no prédio da USP, e através dela um aluno gritou: "Estão contentes? Vocês já mataram um". Só assim os mackenzistas souberam da morte de um adversário. Também não entenderam a morte. Uns diziam que tinha sido uma bomba Molotov, outros, que foram tiros da polícia. Quem havia morrido não interessava. Toda a atenção deveria voltar-se para a pontaria das pedradas, que continuaram, mesmo depois de oitocentos estudantes da USP saírem em passeata.
QUEIMAR, QUEBRAR - Os estudantes ganharam a cidade em dez minutos. Arrancaram um pano vermelho da traseira de um carro-guincho e com ele fizeram uma bandeira. Em seguida, cercaram um Aero-Willys com chapa branca da Prefeitura Municipal de Santo André (cidade dos arredores de São Pauto), obrigaram o chofer, preto e gordo, a correr, quebraram todos os vidros do automóvel e amassaram a carroceria. Vinte metros adiante, rodearam um Volkswagen da polícia. Com pedaços de ferro nas mãos, dirigiram-se ao motorista: "Com licença, nós vamos pôr fogo no seu carro". O policial abandonou o automóvel e ficou a distância entre os espectadores. Os estudantes tombaram o carro e atearam fogo.
Depois incendiaram um Aero-Willys da Força Pública de São Paulo. Iluminados pelas chamas que subiam a 20 metros de altura, José Dirceu e Édson Soares fizeram discursos "denunciando o assassinato de um colega e oferecendo solidariedade aos bancários que, em greve, resistem à opressão". Aproveitando o congestionamento do trânsito, as moças da passeata dirigiam-se aos automóveis parados, pedindo dinheiro para "a resistência" e anunciando a morte do companheiro. Minutos depois queimavam mais um Volkswagen da polícia. As chamas ameaçavam um ônibus; os passageiros o abandonaram apavorados, enquanto uma perua Rural-Willys da chefia policial era depredada. Do alto de alguns prédios caíam papéis picados. Na Praça da Sá, ponto central de São Paulo, um Aero-Willys da Polícia Federal foi depredado; os transeuntes gritavam, corriam. Uma senhora desmaiou e foi carregada até a Catedral. A passeata dirigiu-se para o Largo de São Francisco, onde fica a Faculdade de Direito, contra a qual foram lançados paus e pedras. José Dirceu fez novo discurso. De lá os estudantes correram para a próxima Praça das Bandeiras, onde surgiu um caminhão com doze homens da Força Pública. Os estudantes fugiram aos gritos. Seis jornalistas foram presos.
É UMA ESTUPIDEZ - Na Rua Maria Antônia a batalha arrefecia. No prédio da USP sobravam poucos estudantes. Algumas partes do teto ruíam. Às 18h30, Luís Travassos, o presidente da ex-UNE, entrou na Faculdade de Economia dizendo: "É preciso desmobilizar isso. Daqui a pouco não temos mais munição, o prédio pode ser invadido, vai ser um massacre." Os mais atirados queriam ir buscar o corpo de José Guimarães. "E que vamos fazer com o corpo aqui dentro?", perguntou Travassos dando de ombros. Às 20h30, José Dirceu apareceu com uma camisa suja de sangue. Subiu numa janela e, cercado por fotógrafos e cinegrafistas, teve um gesto dramático: "Colegas, esta camisa é do nosso companheiro morto pelas forças da repressão. Vamos todos para a Cidade Universitária. Haverá assembléia." Duzentos e quarenta soldados da Força Pública, cem cavalarianos, dois tanques e cinqüenta cães amestrados começaram a chegar na Rua Maria Antônia e vizinhança. O Mackenzie foi ocupado sem problemas, mas alguns estudantes ainda atiravam bombas Molotov contra o velho prédio da USP e pedras caíam sobre os jornalistas que tentavam se aproximar.
Um repórter da "Tribuna da Imprensa" do Rio de Janeiro foi ferido na cabeça. A Faculdade de Filosofia também foi ocupada. Nela estavam apenas alguns professores e alunos, fechados numa sala para redigir um manifesto sobre os acontecimentos. Os mackenzistas cantavam o Hino Nacional e davam vivas. A reitora Esther Figueiredo Ferraz apertou a mão de alguns funcionários e estudantes. E os estudantes gritaram: Vamos tomar uns chopes para comemorar a vitória". E foram beber.
QUEM VENCEU? - Enquanto o corpo de José Guimarães era velado pela mãe, a irmã e o irmão, sob forte proteção policial, enquanto os alunos da USP discutiam o que fazer no dia seguinte e os mackenzistas bebiam, o diretor em exercício da Faculdade de Filosofia, Professor Eurípedes Simões de Paula, observava que "o prédio da Maria Antônia não tem condições de funcionar até o fim do ano". As aulas serão transferidas para a Cidade Universitária. "Já deveriam ter saído antes", observou Erwin Rosenthal, o diretor que vai à Europa. Com isso, o Mackenzie ganhava o domínio da Rua Maria Antônia. A briga entre as duas escolas é muito antiga e cheia de crises. A principal foi em 1964, quando o CCC sentiu-se fortalecido com a mudança de regime e invadiu a Faculdade de Filosofia quebrando vidraças, móveis e espancando estudantes. Em 1966, quando Luís Travassos foi eleito presidente da ex-UEE, repetiu-se a invasão e foi destruída a urna de votação. Em 1967, quando José Dirceu substituiu Travassos, houve outras brigas. Mas há alunos do Mackenzie contrários a seus colegas da chamada "tropa de choque". E na passeata de uma hora feita na tarde de sexta-feira por cerca de 4 mil pessoas em sinal de protesto pela morte de José Guimarães (um protesto contra quem?), apareceu urna faixa: "O Mackenzie se Une às Outras Escolas e Repudia a Colaboração dos Professores na Fabricação de Armas Assassinas". Nessa passeata, que acabou sendo dissolvida a bombas de efeito moral e gás lacrimogéneo, José Dirceu declarou que "a UNE e a UEE derrotaram o CCC, o FAC e o MAC em quatro assembléias lá dentro do Mackenzie". A União das Mães de São Paulo, que apoiou a passeata, pediu aos estudantes que se manifestassem pacificamente. "Violência gera violência", disse a oradora da União. Os estudantes não gostaram da advertência. Um coro interrompeu o discurso: "Povo armado derruba a ditadura", gritaram. A senhora não perdeu a coragem. Uma mocinha deu-lhe apoio: "Muito bem". Mas o estímulo caiu no silêncio. A União das Mães tomou uma decisão na hora: "Retiramos nosso apoio se vocês não fizerem essa passeata pacificamente". Mas não houve paz. Alguns estudantes quebraram vidraças do First National City Bank, outros viraram e queimaram um carro. Às 20 horas - duas horas após o desbaratamento da manifestação -, uma perua da Força Pública foi atacada num ponto distante do roteiro da passeata. Luís Travassos e José Dirceu estavam cansados e unidos. A camisa manchada com o sangue de José Guimarães foi carregada como um estandarte. Ninguém - exceto parentes e policiais - pôde ir ao enterro do moço assassinado numa batalha absurda. O sepultamento marcado para as 16 horas de sexta-feira foi às 13 horas, no Cemitério do ?Araçá?. Os moços da ex-UNE querem fazer dessa morte um caso político de repercussão nacional e anunciam mais passeatas. A que pode servir tudo isso? O irmão do morto diz que talvez sirva a alguma coisa, um dia. Que coisa?
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2019.04.23 12:35 gabpac A espetacular saga de uma Kombi Verde e o herói que nunca foi.

No dia 3 de outubro de 1973, uma Kombi verde estacionou na rua Voluntários da Pátria e, de lá, nunca mais saiu.
Apesar de ser central, era um canto da cidade meio abandonado, assim como a Kombi. Havia algumas lojas, duas miseráveis calçadas e uma rua de paralelepípedos cuja principal função parecia ser escoar água da chuva e ter seus bueiros entupidos. A Kombi não tinha séria competição por um espaço no estacionamento e ninguém ligava muito para ela estar ali.
Era uma Kombi de carga, sem janelas na parte de trás. Na frente, a cabine estava limpa e não tinha nenhum objeto aparente, além de uma medalhinha da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, pendurada na alça do painel do lado do passageiro por uma correntinha.
A região começou a mudar. O bar da esquina virou um restaurante. Depois virou uma padaria. De padaria passou a ser uma confeitaria. Confeitaria que faliu e acabou virando bar de novo. As calçadas não melhoraram muito, mas ficaram mais concorridas. Novas lojas abriaram. Joseane's Modas, ao lado do Chaveiro Arco-Iris Ltda. Do outro lado da rua, a Lotérica Esperança, que foi assaltada e depois fechou. No lugar, abriu a Calçados Luana. A Kombi, que já não tinha mais calotas, continuava ocupando seu espaço, mas agora ganhou uma pichação: "Abaixo a Ditadura!" e pouco tempo depois, mais uma: "Geisel é feio!"
A Kombi não chegou a ganhar uma ficha no DOPS pelo delito, mas foi enquadrada por estacionamento irregular agora que a região tinha mudado de zoneamento. Duas ou três vezes por semana um guardinha botava uma e mais uma multa no limpa-parabrisa. Passava por anarquista e subversiva, a Kombi, cheia de multas nos vidros e aquelas pichações claramente revolucionárias. Mas na bagunça que era a prefeitura as multas foram caindo ao chão e nunca foram cobradas. As que não caíram começaram a amarelar e a servir de decoração ao vidro das janelas.
A rua foi asfaltada, finalmente. Ou, pelo menos, a parte desobstruída da rua, porque a Kombi seguia ali. Não foi removida porque abrigava uma família de gatos e servia de proteção às flores que o dono da nova floricultura plantou nos vãos entre os paralelepípedos debaixo dela. Esperto o dono da floricultura, que espalhou que a Kombi era mal-assombrada, porque não achou que os funcionários da prefeitura iam dar bola para flor ou para gato. Funcionou, mas só porque os funcionários da prefeitura ficaram com preguiça e usaram a maldição como desculpa para não remover a Kombi. A família de gatos cresceu, as flores vicejaram. A história de terror ganhou detalhes e vida própria: Oras a Kombi teria sido abandonada por um guerrilheiro, oras por um jornalista injustamente preso pela ditadura. Torturado, teria morrido numa base da aeronáutica e agora seu fantasma ficava ali, protegendo os gatos e as flores na sua Kombi. Alguém tinha pichado por cima das pichações antigas: "PiRoLiTo é o maior!". O spray falhou na curva do P e ficou parecendo um F, e Firolito ficou sendo o nome do fantasma.
"Na frente da Kombi da Voluntários", ou "Na Kombi do Firolito" começaram a se transformar em indicações geográficas de quem vivia e trabalhava por ali. Uma banca de jornais abriu ali na frente. Firolito Jornais e Revistas. Surgiu mais ou menos quando alguém pichou ali "Diretas Já!".
O dono da banca contava e aumentava a história do grande Firolito, jornalista que havia descoberto escândalos de corrupção descomunais no governo do estado, e assim, havia sido acusado de comunista, preso, torturado e morto. Sua Kombi havia sido largada ali durante a última perseguição policial. Firolito, devoto da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, largou o veículo e tentou seguir à pé para a casa da namorada que vivia ali perto. A santa não ajudou. Foi pego. Nunca teve chance de avisar alguém que seu gato estava ali. O fantasma, o jornaleiro explicava, havia voltado para proteger seu gato e seus descendentes, e agora protegia aquele pedaço de rua, seus animais e suas flores.
Durante a campanha das diretas, a Kombi ganhou uma faixa com o nome de jornalistas presos durante a ditadura e mais flores. Vários cartazes foram colados pedindo anistia para a então namorada de Firolito que, segundo a história, tinha fugido para o exterior e vivia exilada na Inglaterra.
Não demorou para aparecer uma Isolda qualquer, dizendo que era a namorada do Firolito, contando o quanto ele tinha sido um herói. Contou os belos momentos que passaram na Kombi azul (afinal a cor original já tinha há muitos se transformado numa maçaroca de pichações, oxidação, sujeira e papéis de multas amarelados), que com ela cruzaram o país e nela moraram nos momentos difíceis. Reconheceu um dos gatos que ali vivia: era o Farfalho, o pobre gato do casal, já velhinho, mas ela tinha certeza, era ele. Deu sua bênção ao lugar e permitiu que uma foto sua fosse pendurada no recém aberto Bar do Firolito.
Vários canteiros de flores foram colocados na calçada na frente da Kombi. E um banco. A rua cresceu e ganhou importância. As calçadas foram refeitas e a prefeitura resolveu não se meter na manifestação de amor que a população espontaneamente mantinha ao redor da Kombi. Um vereador de um partido comunista, muito comovido, propôs erguer uma placa no local contando a história do Firolito. Assim, na parede logo ao lado do bar foi afixada uma placa de bronze em homenagem a Joaquim Firolito de Souza, herói nacional.
O bar virou um museu, a banca de revistas virou uma livraria de nicho. O restaurante virou um por-quilo. O prédio do outro lado da rua foi todo reformado, virando a sede de uma grande seguradora. No dia em que Tancredo morreu houve uma sessão ecumênica ao redor da Kombi, em que todos se deram as mãos e cantaram o hino nacional. Sarney veio e alguém pichou um bigode na frente da Kombi. Sarney se foi, o bigode ficou. O bar do Firolito
foi vendido e o novo dono achou que o bigode era uma homenagem ao próprio que, supostamente tinha um bigodão também. Logo um cartum da cara do Firolito, de bigode, virou o logotipo do bar.
Anos depois, quando Lula foi eleito presidente, emocionado, o povo veio ao bar, homenagear Firolito, que teria ficado orgulhoso daquele dia. A floricultura já tinha fechado, virou um banco. Do seu lado, um McDonald's abriu. Uma página de internet com o material do museu foi aberta. Uma referência na Wikipedia foi escrita, com uma foto de Joaquim Firolito de Souza e seu bigode, na frente da Kombi num dia ensolarado numa praia no nordeste.
O vandalismo tomou conta da região. Em letras negras, enormes, alguém pichou "KTM" sobre a Kombi. Outro pichou por cima: "Sussurro é REI". Um mendigo decidiu guardar suas tralhas debaixo do veículo e dormir ali de vez em quando. Vereadores, escandalizados com o descaso criaram o Dia Municipal do Firoliro, pintaram a Kombi de verde e amarelo e botaram um cercadinho de correntes ao redor do lugar. Isso foi logo antes das manifestações espontâneas de 2013. Firoliro estava quase esquecido pelo povo, que passou por ali e se emocionou em ver as cores da bandeira e decidiu abraçar o monumento.
Mas o país tinha mudado. Logo vieram as manifestações contra o governo e pelo impeachment da Dilma. Discursos inflamados contra heróis do passado viraram norma. No dia do Firolito houve manifestação online dos moradores da cidade e região que começaram a discutir nas redes sociais e entender o personagem comemorado. Firolito era na verdade corrupto. Ele fez que desvendou um esquema de corrupção porque não conseguiu extorquir o suficiente das autoridades. Além disso, descobriu-se que trabalhava para organizações comunistas e repassava o dinheiro de corrupção para atividades subversivas. Firolito era um bandido e aquela Kombi havia sido deixada na rua de propósito, para servir de esconderijo para fugitivos do governo. Aquele bigode, todos sabiam, era homenagem a Stalin.
Em uma manifestação pouco antes das eleições de 2018, a turba insandecida atirou-se contra a Kombi. Voaram flores, voaram gatos, voaram multas antigas aplastradas pelo tempo e camadas de tinta. Quebrou-se o parabrisas. Uma pedra acertou de jeito a porta lateral que, depois de 45 anos, finalmente se abriu. Dentro da Kombi havia uma caixa com uma fantasia de palhaço, incluindo peruca e nariz, dezessete bíblias, 4 caixas cheias da mesma edição de uma revistinha de sacanagem do Carlos Zéfiro, duas garrafas de vodka pela metade e uma latinha com maconha mofada.
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2019.04.23 12:34 gabpac A espetacular saga de uma Kombi Verde e o herói que nunca foi.

No dia 3 de outubro de 1973, uma Kombi verde estacionou na rua Voluntários da Pátria e, de lá, nunca mais saiu.
Apesar de ser central, era um canto da cidade meio abandonado, assim como a Kombi. Havia algumas lojas, duas miseráveis calçadas e uma rua de paralelepípedos cuja principal função parecia ser escoar água da chuva e ter seus bueiros entupidos. A Kombi não tinha séria competição por um espaço no estacionamento e ninguém ligava muito para ela estar ali.
Era uma Kombi de carga, sem janelas na parte de trás. Na frente, a cabine estava limpa e não tinha nenhum objeto aparente, além de uma medalhinha da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, pendurada na alça do painel do lado do passageiro por uma correntinha.
A região começou a mudar. O bar da esquina virou um restaurante. Depois virou uma padaria. De padaria passou a ser uma confeitaria. Confeitaria que faliu e acabou virando bar de novo. As calçadas não melhoraram muito, mas ficaram mais concorridas. Novas lojas abriaram. Joseane's Modas, ao lado do Chaveiro Arco-Iris Ltda. Do outro lado da rua, a Lotérica Esperança, que foi assaltada e depois fechou. No lugar, abriu a Calçados Luana. A Kombi, que já não tinha mais calotas, continuava ocupando seu espaço, mas agora ganhou uma pichação: "Abaixo a Ditadura!" e pouco tempo depois, mais uma: "Geisel é feio!"
A Kombi não chegou a ganhar uma ficha no DOPS pelo delito, mas foi enquadrada por estacionamento irregular agora que a região tinha mudado de zoneamento. Duas ou três vezes por semana um guardinha botava uma e mais uma multa no limpa-parabrisa. Passava por anarquista e subversiva, a Kombi, cheia de multas nos vidros e aquelas pichações claramente revolucionárias. Mas na bagunça que era a prefeitura as multas foram caindo ao chão e nunca foram cobradas. As que não caíram começaram a amarelar e a servir de decoração ao vidro das janelas.
A rua foi asfaltada, finalmente. Ou, pelo menos, a parte desobstruída da rua, porque a Kombi seguia ali. Não foi removida porque abrigava uma família de gatos e servia de proteção às flores que o dono da nova floricultura plantou nos vãos entre os paralelepípedos debaixo dela. Esperto o dono da floricultura, que espalhou que a Kombi era mal-assombrada, porque não achou que os funcionários da prefeitura iam dar bola para flor ou para gato. Funcionou, mas só porque os funcionários da prefeitura ficaram com preguiça e usaram a maldição como desculpa para não remover a Kombi. A família de gatos cresceu, as flores vicejaram. A história de terror ganhou detalhes e vida própria: Oras a Kombi teria sido abandonada por um guerrilheiro, oras por um jornalista injustamente preso pela ditadura. Torturado, teria morrido numa base da aeronáutica e agora seu fantasma ficava ali, protegendo os gatos e as flores na sua Kombi. Alguém tinha pichado por cima das pichações antigas: "PiRoLiTo é o maior!". O spray falhou na curva do P e ficou parecendo um F, e Firolito ficou sendo o nome do fantasma.
"Na frente da Kombi da Voluntários", ou "Na Kombi do Firolito" começaram a se transformar em indicações geográficas de quem vivia e trabalhava por ali. Uma banca de jornais abriu ali na frente. Firolito Jornais e Revistas. Surgiu mais ou menos quando alguém pichou ali "Diretas Já!".
O dono da banca contava e aumentava a história do grande Firolito, jornalista que havia descoberto escândalos de corrupção descomunais no governo do estado, e assim, havia sido acusado de comunista, preso, torturado e morto. Sua Kombi havia sido largada ali durante a última perseguição policial. Firolito, devoto da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, largou o veículo e tentou seguir à pé para a casa da namorada que vivia ali perto. A santa não ajudou. Foi pego. Nunca teve chance de avisar alguém que seu gato estava ali. O fantasma, o jornaleiro explicava, havia voltado para proteger seu gato e seus descendentes, e agora protegia aquele pedaço de rua, seus animais e suas flores.
Durante a campanha das diretas, a Kombi ganhou uma faixa com o nome de jornalistas presos durante a ditadura e mais flores. Vários cartazes foram colados pedindo anistia para a então namorada de Firolito que, segundo a história, tinha fugido para o exterior e vivia exilada na Inglaterra.
Não demorou para aparecer uma Isolda qualquer, dizendo que era a namorada do Firolito, contando o quanto ele tinha sido um herói. Contou os belos momentos que passaram na Kombi azul (afinal a cor original já tinha há muitos se transformado numa maçaroca de pichações, oxidação, sujeira e papéis de multas amarelados), que com ela cruzaram o país e nela moraram nos momentos difíceis. Reconheceu um dos gatos que ali vivia: era o Farfalho, o pobre gato do casal, já velhinho, mas ela tinha certeza, era ele. Deu sua bênção ao lugar e permitiu que uma foto sua fosse pendurada no recém aberto Bar do Firolito.
Vários canteiros de flores foram colocados na calçada na frente da Kombi. E um banco. A rua cresceu e ganhou importância. As calçadas foram refeitas e a prefeitura resolveu não se meter na manifestação de amor que a população espontaneamente mantinha ao redor da Kombi. Um vereador de um partido comunista, muito comovido, propôs erguer uma placa no local contando a história do Firolito. Assim, na parede logo ao lado do bar foi afixada uma placa de bronze em homenagem a Joaquim Firolito de Souza, herói nacional.
O bar virou um museu, a banca de revistas virou uma livraria de nicho. O restaurante virou um por-quilo. O prédio do outro lado da rua foi todo reformado, virando a sede de uma grande seguradora. No dia em que Tancredo morreu houve uma sessão ecumênica ao redor da Kombi, em que todos se deram as mãos e cantaram o hino nacional. Sarney veio e alguém pichou um bigode na frente da Kombi. Sarney se foi, o bigode ficou. O bar do Firolito
foi vendido e o novo dono achou que o bigode era uma homenagem ao próprio que, supostamente tinha um bigodão também. Logo um cartum da cara do Firolito, de bigode, virou o logotipo do bar.
Anos depois, quando Lula foi eleito presidente, emocionado, o povo veio ao bar, homenagear Firolito, que teria ficado orgulhoso daquele dia. A floricultura já tinha fechado, virou um banco. Do seu lado, um McDonald's abriu. Uma página de internet com o material do museu foi aberta. Uma referência na Wikipedia foi escrita, com uma foto de Joaquim Firolito de Souza e seu bigode, na frente da Kombi num dia ensolarado numa praia no nordeste.
O vandalismo tomou conta da região. Em letras negras, enormes, alguém pichou "KTM" sobre a Kombi. Outro pichou por cima: "Sussurro é REI". Um mendigo decidiu guardar suas tralhas debaixo do veículo e dormir ali de vez em quando. Vereadores, escandalizados com o descaso criaram o Dia Municipal do Firoliro, pintaram a Kombi de verde e amarelo e botaram um cercadinho de correntes ao redor do lugar. Isso foi logo antes das manifestações espontâneas de 2013. Firoliro estava quase esquecido pelo povo, que passou por ali e se emocionou em ver as cores da bandeira e decidiu abraçar o monumento.
Mas o país tinha mudado. Logo vieram as manifestações contra o governo e pelo impeachment da Dilma. Discursos inflamados contra heróis do passado viraram norma. No dia do Firolito houve manifestação online dos moradores da cidade e região que começaram a discutir nas redes sociais e entender o personagem comemorado. Firolito era na verdade corrupto. Ele fez que desvendou um esquema de corrupção porque não conseguiu extorquir o suficiente das autoridades. Além disso, descobriu-se que trabalhava para organizações comunistas e repassava o dinheiro de corrupção para atividades subversivas. Firolito era um bandido e aquela Kombi havia sido deixada na rua de propósito, para servir de esconderijo para fugitivos do governo. Aquele bigode, todos sabiam, era homenagem a Stalin.
Em uma manifestação pouco antes das eleições de 2018, a turba insandecida atirou-se contra a Kombi. Voaram flores, voaram gatos, voaram multas antigas aplastradas pelo tempo e camadas de tinta. Quebrou-se o parabrisas. Uma pedra acertou de jeito a porta lateral que, depois de 45 anos, finalmente se abriu. Dentro da Kombi havia uma caixa com uma fantasia de palhaço, incluindo peruca e nariz, dezessete bíblias, 4 caixas cheias da mesma edição de uma revistinha de sacanagem do Carlos Zéfiro, duas garrafas de vodka pela metade e uma latinha com maconha mofada.
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2019.04.23 07:40 Samuel_Skrzybski STEEL HEARTS - PRÓLOGO

Uma nota pré-texto, apenas para situar melhor o leitor: na primeira parte do prólogo, que começa em "Em um dia, ele acordou diferente do seu jeito de sempre acordar", o personagem em questão é o nosso protagonista, Saravåj. Já na segunda parte, que começa a partir de "Em um dia, ele acordou como sempre costumava acordar", o personagem muda e passa a ser o rei da Pasárgada, Matiza Perrier. O prólogo é um contraponto entre os dois, embora o faça sem citar nomes. E se você não entendeu nada a respeito do que eu falei até aqui: dá uma olhada na introdução de Steel Hearts, se quiser, que tá linkada ai em cima.
Enfim, boa leitura! :)
[EDIT: Eu usei o underline para iniciar os diálogos porque o Reddit reconhece o travessão como marcador de tópico.]
Em um dia, ele acordou diferente do seu jeito de sempre acordar.
Ele sentiu a luz do sol em seu rosto, anunciando que a escuridão da noite já havia passado e que o céu era claro mais uma vez. Os seus sentidos despertaram pouco a pouco, como os de quem acorda de um coma após uma década de inatividade. Em um suspiro profundo, pôde sentir o odor de móveis velhos daquele quartinho arranjado e exíguo, mas inegavelmente organizado com maestria milimétrica em cada mínimo detalhe por ele próprio. Confirmou para si mesmo que estava, de fato, vivo.
Vagarosamente, os seus olhos também ganharam vida. Assim que o seu par de olhos se abriu pela primeira vez naquele dia, sua íris castanho-claro focou, sem se mexer um milímetro para a direita, sem se deslocar um milímetro para a esquerda, em uma tábua que estava fora do lugar no teto de madeira bege-clara de seu cubículo. Lhe incomodava demasiadamente aquela quebra abrupta no padrão de tábuas alinhadas e retilíneas. Namorou aquele lasco de madeira solto durante infinitos minutos. À essa altura, seu mecanismo interno também começou a funcionar e debutou a processar informações.
Ele planejou mil e uma formas de solucionar este problema que tanto lhe afligia, com a pia e ridícula convicção de que, quando tornasse àquele mesmo panorama quando o breu noturno caísse novamente, aquela tábua defeituosa continuaria ali, sem sequer ser tocada por um dedo que fosse. Talvez por cansaço físico e mental dele. Talvez por sua própria incapacidade de tecer um projeto suficientemente perfeito para dirimir o que lhe amorfidava. Ou, talvez, por não ser nada além de uma tábua antiga e quebrada. Até que, por fim, ele se concentrou exclusivamente no melódico canto dos pássaros que vinha do lado de fora. Dos presentes da natureza que ele recebia por morar naquele recinto, sem dúvida, a música dos pardais era o mais belo e mais agradável de todos.
Por todos os deuses e deusas do cosmo! Os pássaros! Os pardais-espanhóis!
Ele se levantou violentamente, repelindo para longe a sua coberta, o seu travesseiro e todo empecilho que estivesse em seu caminho, como se estivesse no ápice de sua energia diária, e se colocou, em questão de segundos, na frente da imensa janela de vidro que se localizava estrategicamente na dianteira de sua cama.
Esfregou os olhos. Depois os arregalou. Repetiu o processo algumas vezes.
Quem se colocava, como ele, à frente daquela majestosa janela, tinha uma visão privilegiada de uma enorme figueira que existia naquele vilarejo. Chamava a atenção, ao primeiro olhar, pelo tamanho. Não poderia ser diferente. Aquela árvore era um verdadeiro gigante. Ao mesmo tempo, era uma figueira muito velha, é verdade. Já deveria estar gozando da terceira fase de sua vida. De seus dois mil anos, no mínimo. Seus galhos já eram totalmente retorcidos. Sua raíz era grossa e invadia o solo que lhe rodeava, como um monstro botânico que tenta alcançar a superfície. Contudo, em contraponto, as suas folhas reluziam a vida. Todas elas. O pigmento verde-esmeralda destas era o mesmo de uma plantinha que acabara de desabrochar. Todo o seu caule era consistente e forte, sustentando com exuberância todos os seus inúmeros galhos. Seria uma calúnia atroz afirmar que, mesmo que de muito longe, se tratava de um mero agigantado pedaço de madeira oco e sem vida. Nos pés do caule da monumental figueira, existia uma pequena placa pregada junto à árvore, também de madeira, mas em tom muito mais claro. Nela, lia-se a frase em latim "Hic insignis femina forti ager deambulavit in terra" em letras garrafais, mas visivelmente pintadas com uma tinta branca ralé e desbotada, tornando as inscrições apagadas pelo efeito do tempo praticamente ilegíveis.
Todavia, ele não estava lá para endeusar aquela dádiva da mãe-natureza. Os seus olhos tinham outro eixo. Naquela árvore, muito além da fitologia e de toda tonalidade verde-vivo que lhe envolvia, existia uma verdadeira sociedade de pardais-espanhóis. Haviam vinte ou trinta famílias de pardais que levavam suas vidas nos galhos daquela grandiosa figueira já há anos. Todos eles, passarinhos miúdos, ariscos e ligeiros, características naturais de sua espécie, que levavam em suas penas tons que variavam de marrom-escuro até colorações mais acinzentadas.
Na árvore, se organizavam como se houvesse um contrato social entre eles. Como se os pardais fossem, de fato, seres pensantes, dotados de raciocínio lógico e com a capacidade de agruparem-se em um meio social concreto, previamente definido por regras a serem seguidas por todos. A figueira era a estalagem. Cada galho, uma residência. Não haviam duas ou mais famílias de pardais por galho. Em todos os ramalhos que se fragmentavam do caule, existia somente um ninho de pardal-espanhol, como se todos eles concordassem que aquele era o número ideal de famílias por galho. No raiar do dia, os pássaros se agitavam, aforando os ouvidos de quem quisesse ouvir com a sua graciosa música inerente. Neste átimo, o pássaro-mor de cada ninho voava pelo horizonte, em busca do sustento de sua parentela. E ao final do entardecer, retornava ao seu lar, socializando com os seus os ganhos do dia. Desta forma, aquele agrupamento de pardais engrenava. E só seria uma indiscutível violação de juramento afirmar que a subsistência dos pardais-espanhóis na figueira era, efetivamente, próspera, por efeito do vilão da estalagem. Um abutre.
De corpo robusto e de asas de envergadura majestosa, tinha dez, vinte, trinta, quarenta, cinquenta vezes o tamanho de qualquer pardal-espanhol. Era um autêntico ogro ao lado de um pardalzinho. E, ao contrário da prevalência dos membros de sua espécie, não era de aparência macabra. A plumagem de seu tronco era marrom-clara, como a das águias. E a sua coroa não era pelada, como a maioria dos abutres, que mais se assemelhavam a um morto-vivo do que a uma ave. Continha penas brancas como a neve em seu crânio. Também tinha em seu arsenal de combate garras afiadas como agulha de alfaiate, um bico longo e pontudo e um olhar que imporia pavor até mesmo em um Argentavis. O abutre lembrava muito mais uma ave de rapina do que um urubu. Localizava-se sempre no ponto mais alto da figueira, como a estrela de Belém em uma árvore natalina.
O abutre, sem dúvidas, era o amo daquela sociedade. O dono. O rei. Todos os pardais-espanhóis se viam fracos e indefesos diante de uma ave tão superior em tamanho e em força e se curvavam diante do abutre, ainda que mordendo a língua de desgosto. De todos os pássaros da figueira, o abutre era o único que não se aventurava no mundo além daquela lendária árvore em busca da sobrevivência diária. Muito pelo contrário: agia como um cobrador. Durante todo nascer do sol, sem feriado nem dia santo, o abutre voava de galho em galho, de residência em residência, de família de pardalzinho em família de pardalzinho, tomando para si uma parcela das sementes, grãos, cereais e pedaços de legumes que as famílias de pardal haviam faturado no dia anterior. Na maioria das vezes, era a metade. Por algumas vezes, entretanto, o abutre não fazia economias e se apoderava de mais - e muito mais - da metade dos alimentos de um ou outro ninho de pardal-espanhol, deixando estes reféns de sua própria sorte, suplicando aos deuses para que naquele dia o saldo alimentício do chefe da família fosse dobrado. Em troca desta colaboração forçada, os pardais-espanhóis não recebiam absolutamente nada. Nem proteção do abutre. Nem nada que dependa da solicitude do malévolo pássaro-rei. Não era justo. Mas "realidade" e "justiça" são palavras que raramente caminham de mãos dadas. O medo que os frágeis pardais tinham do abutre, tão corpulento, tão vasto, tão amedrontador, impedia-os de organizar uma revolta contra aquele pássaro das trevas. Era parte da rotina ceder metade dos seus lucros, sem mais nem menos, ao seu próprio carrasco.
E assim a sociedade de pássaros que vivia naquela louvável e anciã figueira funcionou durante muito tempo.
Até aquele dia.
Naquela manhã, tudo foi diferente.
O abutre deu início à arrecadação do alquilé dos pardais, como o de costume. Até que, após confiscar para si alguns pequenos grãos e sementes sem imprevistos, voejou até um galho que se localizava em um dos pontos mais altos do lado esquerdo da figueira.
Ali residia um pardal-espanhol solitário. Não tinha família. Morava sozinho em seu ninho. Era tão pequenino e franzino como os outros. Carregava em seu corpo penas marrom-claro, quase que idênticas às do abutre. Também tinha uma listra branca que corria por todo o seu corpo, o que lhe diferia dos demais. Ela tinha início na parte inferior de seu olho direito e só encontrava fim quando terminava o torso do pardal.
Naquela manhã, ele resistiu. Se apresentou à frente do abutre, que era um genuíno arranha-céu em frente ao passarinho, como quem se recusa a cumprir uma ordem e desafia o seu algoz. O abutre estufou o peito, na tentativa de intimidar o pardal-espanhol revoltoso. Em vão.
Antes que o abutre pudesse adotar qualquer segunda atitude visando espantar o seu adversário, o pardalzinho o atacou, em um movimento precípite e, acima de tudo, inesperado. O abutre foi lançado para fora do galho pela força da velocidade que o pardal imprimiu e os dois pássaros passaram a brigar no ar. No combate corpo a corpo, o pardal-espanhol compensava a ausência de força com uma agilidade que o abutre não conseguia acompanhar. O abutre se tornara incapaz de usar o seu tamanho e a sua robustez avantajada à seu favor. O inverso aconteceu: a grandeza física do abutre fazia com que ele fosse um alvo fácil de ser atingido por seu rival. A força, meio que o abutre usou para ser condecorado o pássaro-mor hegemônico daquela figueira durante tanto tempo, trazia junto de si a lentidão, o que fazia com que aquela ave, antes tão temida e respeitada por seus subordinados, não conseguisse inibir as investidas do nanico e veloz pardal-espanhol. O pardal nocauteava o abutre várias e várias vezes, mudando de uma direção para outra como uma flecha, antecipando os movimentos tardios de seu inimigo. O contrário não acontecia. Naquele instante, o abutre servia somente de saco de pancadas para o pardal.
A ameaça que a revolta daquele heróico pardal-espanhol representava à soberania do abutre serviu de gatilho para muitos outros pássaros residentes da figueira, também descontentes com a iniquidade daquela dura submissão, que deixaram os seus ninhos para também golpear e bicar o abutre simultaneamente. Em pouco tempo, mais da metade da sociedade de pardais-espanhóis estava ali, lutando por sua plena liberdade. O abutre tentava se defender do bando como podia. Se contorcia, esticando as suas garras freneticamente para todas as direções até o limite de sua flexibilidade, na tentativa de abater um ou outro pardal. Se já era árduo para ele engalfinhar-se com um pardal-espanhol só, guerrear contra um bando inteiro tornava-se insustentável. O abutre debatia-se em gemidos escandalosos de dor, na risível esperança de enxotar todos aqueles incontáveis pássaros para longe de si.
Até que, de tanto que insistiu e esperneou, o carrasco conseguiu prender um de seus êmulos em uma de suas garras - a esquerda. Aquele pardalzinho foi, instantaneamente, neutralizado. As unhas pontudas do abutre, que mais pareciam pequenos punhais, atravessaram a plumagem marrom-clara daquele pequeno pássaro sem lástima nenhuma, perfurando-o exatamente no centro da extensa listra branca que se avultava por todo o seu corpo, peculiaridade que lhe diferenciava de todos os outros pardais. Era ele. O pardal-espanhol rebelde. O motor daquela rebelião. O patrono dos pardais-espanhóis malcontentes com as injustiças cotidianas daquela estalagem. Aquele - o único! - que aceitou com prontidão o perigoso jogo de confrontar o temeroso abutre. Justamente ele, entre as dezenas de pássaros. O destino, perpetuamente muito irônico, pôs-se a rir da infeliz coincidência. O pardalzinho revolucionário era, de modo inegável, muito astuto. Mas nem que tivesse o quádruplo de sua resistência física, seria capaz de sobreviver estando entre as implacáveis garras cortantes do abutre. Ele não teve sequer a chance de lutar por sua supervivência. Os seus órgãos internos foram espremidos. A morte foi instantânea. O cadáver, sem embargo, continuou nos gatázios do abutre, como se fosse um troféu - ou prêmio de consolação - para o impiedoso pássaro-rei.
Os demais pássaros revoltosos, à exemplo de seu recém-falecido condutor, seguiram a bicar o abutre, com cada vez mais violência, como se não fossem meros passarinhos tênues e mansos. Mais pareciam, naquela rebelião, verdadeiros animais selvagens. O bando de pardais-espanhóis era uma máquina de guerra, pronta para esquartejar o seu inimigo a qualquer instante. Era questão de tempo até que o abutre tivesse o mesmo trágico fim do pardal causador de toda aquela anarquia necessária. Do pardalzinho que ele acabara de tirar a vida friamente. O destino, por sua vez, não tardou muito. O abutre já mal tinha forças para para estrebuchar, reconhecendo pouco a pouco o seu melancólico e penoso porvir. E este não podia sequer pleitear a vida por suas habituais injustiças. Todo aquele sofrimento do abutre era íntegro. Merecido. Conveniente. Depois de tanto atazanar os pardais daquela figueira, era a hora do acerto de contas.
Em um movimento descontrolado, um dos pardais-espanhóis mais exaltados em meio àquela calorosa confusão bicou o comprido pescoço do abutre ferozmente, estourando com retidão cirúrgica sua veia jugular. O golpe foi fatal. Morte instantânea. A morte, inegavelmente, é juiz. Se a vida, por muitas vezes, favorece aos maliciosos, a morte, sui generis, jamais falha. Pune a todos, sem distinguir. Um jato de sangue arroxeado jorrou da goela do abutre, manchando com aquela seiva honrosa boa parte dos pardais que estavam em torno do pássaro sucumbido quando a bicada da vitória foi desferida. A revolução dos pardais estava completa. Não havia mais carrasco. Não havia mais verdugo. Não havia mais medo, nem aluguel. Enfim, o abutre libertou o corpo sem vida do passarinho revoltoso de suas garras e, simbolicamente, todos os pardais que integravam aquela sociedade.
O monumental corpo ensanguentado do abutre e o defunto esmagado do pardal-espanhol rebelde caíram lentamente pelo ar, lado a lado. E tocaram o chão exatamente no mesmo instante, fazendo valer, mais uma vez, uma velha máxime da vida: quando o jogo acaba, todas as peças, por mais diferentes que sejam entre si, voltam para a mesma caixa, sem se queixar.
Ele assistiu tudo de camarote.
"É tão estranho. Os bons morrem antes", ele pensou consigo mesmo.
Ele, então, voltou-se para a sua cama. Deu meia-volta, despiu-se dos trapos velhos que usava para dormir e vestiu o seu traje de batalha mais nobre, que levava uma enorme capa vermelho-vinho às costas, que recaía por quase toda sua armadura de ferro medieval, a qual ele também envergou. Sentiu-se, como sempre, mais são portando aquela farda solene. Olhou por intensos segundos para o seu próprio reflexo no espelho que havia em frente à cabeceira, com um ar aristocrata de confiança. Apoderou-se, ademais, de duas espadas que estavam encostadas no pé dianteiro de sua cama. Uma banhada à prata e outra banhada à bronze, tinham a estatura, à grosso modo, moderadamente menor do que uma vassoura comum. De lâmina mais fina e de peso mais leve em comparação com as espadas universais dos templários, colocou suas duas gládias nas bainhas que também carregava em suas costas. Por fim, deixou o seu quartinho amanhado, organizado como nunca, exceto pela tábua desprendida no teto de seu cubículo - aquela amaldiçoada tábua! - fechando a porta amadeirada deste para jamais tornar a abri-la.
O vento, enfim, soprava à seu favor: era tempo de ressureição.
Em um dia, ele acordou como sempre costumava acordar.
De ressaca. Sentia em seu crânio pontadas de dor, que iam e vinham. O cenário ao seu redor denunciava o motivo de seu mal-estar: infinitas garrafas de vinho e de licor vazias em torno dele, além de incontáveis taças douradas, também vazias ou consumidas somente até a metade. Ele despertou em um magnificente trono real dourado, produzido tendo o ouro puro como sua matéria-prima e decorado com jóias preciosas, coloridas e resplandecentes - havia tido o seu sono ali naquela madrugada, sentado. Aquele trono dourado era o ponto mais alto daquele salão. Tanto que, era preciso subir alguns degraus para chegar até ele - não por acaso. A ideia era, de fato, representar o ápice da soberania que um mortal poderia desfrutar. O lugar mais alto que alguém poderia ocupar na pirâmide social.
Ele, com os olhos entreabertos e com os movimentos anormalmente vagarosos, aparentando ainda estar um pouco ébrio, começou a esparramar com as mãos as cartas de baralho que estavam no braço direito do trono real, deixando com que algumas caíssem ao chão. As cartas, espalhadas por todo salão real, retratavam as várias e várias jogatinas e capotes da madrugada anterior, os quais ele mesmo fomentou. Ele havia patrocinado uma farra regada à bebidas alcoólicas caras na madrugada daquele dia, junto de seus companheiros mais íntimos. Por mais uma vez. Os eventos alcoólatras apadrinhados por ele eram corriqueiros, praticamente diários.
Ele seguia espalhando as cartas do baralho, até que uma lhe chamou a atenção. Era um rei. Um rei de espadas. Não era o roupão vermelho do rei, fragmentado em mandalas, que lhe atraía. Muito menos as espadas coloridas que ele segurava em cada uma das mãos. Nem o bigode, nem o cabelo, nem a coroa. O olhar. Os olhos daquele rei eram diferentes dos demais. Eram intimidadores. Transbordavam malícia e davam um sentido maquiavélico àquela carta. De todos os reis do baralho, aquele, sem dúvidas, era o mais perspicaz. O que tinha a maior agudeza de espírito. O mais astuto, talentoso, inteligente e toda e qualquer palavra que remete a um privilegiado intelecto ardil. Ele pegou a carta em suas mãos e apreciou-a por alguns instantes, rindo. Até que, levou o rei de espadas até o braço esquerdo do trono do rei, onde havia uma taça de ouro da noite anterior, cheia de vinho até a metade. E então, mergulhou a carta no vinho, por diversas vezes, repetidamente.
_ Beba, reizinho. Beba. Que, por hora, é o melhor que se faz. O álcool foi inventado pelo homem para suprimir o tédio diário, você sabe bem. As mulheres também vão te distrair com seus corpos, se você assim quiser. Mulheres e bebidas. É por isso que a nossa passagem terrena vale a pena, não? Beber para as mulheres. Beber por causa de mulheres. Beber junto das mulheres. Afinal de contas, o mundo está de braços abertos para te servir. Os miseráveis tem a honra de dividir uma geração contigo, alguém tão genial, tão brilhante, tão divino. É dever deles a solicitude para com você, não acha? Grandes conquistas virão, reizinho. Muito maiores do que qualquer ratazana européia um dia já pôde imaginar. Mas enquanto as glórias ainda não se concretizam, beba. Somente beba. Até desaparecer-lhe o fígado.
Uma voz juvenil, neste momento, cessou o seu delírio abruptamente.
_ Meu rei! Mil perdões por interromper-lhe!
Era um jovem e raquítico soldado. Parecia nervoso por estar em presença de alguém tão importante. Tinha como suas vestes o uniforme-modelo dos cavaleiros da Ordem do Templo, utilizado nas cruzadas do século anterior. Todavia, distinguia-se destes pela tonalidade azul-marinho substituindo a vermelho-sangue e por conter um brasão com a letra "P" no lado esquerdo do peito de sua armadura.
_ Já interrompeu, ora! Por que me solicita o perdão, asno?
_ Então perdoa-me por lhe solicitar o perdão, meu rei, se isto ameniza o meu deslize. Vim somente lhe transmitir um recado da rainha. Ela me pediu para vir lembrar-lhe que está quase na hora de discursar para o povo. A rainha e os membros da elite já estão na sacada do castelo. Sua louvável presença é a única que falta para o início do discurso real.
_ Ah! Claro! Já havia me esquecido. A ressaca me veio mais forte do que o habitual nesta manhã. E se não estivesse tão em cima do horário, queria embriagar-me antes do enunciado. Você já imaginou? Tente imaginar, se o seu retardado intelecto não te impedir. Discursar completamente bêbado! O povo, sem dúvidas, acharia fantástico! O que achas, capacho? Dê-me sua opinião, por mais desprezível que seja.
Enquanto falava, ele levantou-se e desceu os degraus do trono real com dificuldade, cambaleando.
_ É... Seria memoroso! Com toda a certeza!
_ És um bom rapaz, soldadinho. Você é dos meus, eu tinha a pia convicção! Inclusive, acho que a sua figura é a que falta para completar nossas diversões alcoólicas que ocorrem depois do último badalar do sino. O que me diz, meu companheiro? Licor e vinho à vontade depois do horário dos mortos! Está de acordo?
_ Verdadeiramente, meu rei?
O soldado recém-formado olhou para ele com o olhar mais inocente que se pode imaginar.
_ É claro que não, capacho! Onde já se viu? Uma barata do exército imperial feito você em meio aos mais finos nobres! Tira-te as patas do meu salão real, imbecil!
O soldado saiu imediatamente da sala privada do rei, trêmulo. Ele, em todo o tempo com um largo sorriso no rosto, gargalhou de suas próprias anedotas. Ainda assim, a informação que o seu subordinado lhe transmitiu estava correta. Faltavam poucos minutos para o discurso semanal do rei para os seus populares. Era mais um domingo gelado de inverno. Ele seguiu pelos cômodos e corredores do Castelo de Woodyard. Conforme caminhava, escutava um coro uníssono, em êxtase, que se tornava mais forte conforme ele se aproximava da sacada do castelo.
_ Vida longa ao rei! Vida longa ao rei! Vida longa ao rei!
Ele, enfim, chegou até a sacada. O povo ali presente, em frente ao castelo, engrossou ainda mais o hino quando o viu. Com os braços abertos, de aparência amigável e singela, ela acenou para o povo que estava abaixo, como sempre. A rainha, idem, estava ali, sempre à sua direita, ora envolvida pelos braços dele, ora também saudando o público.
_ Bebi o dobro do que você bebeu nesta madrugada, meu amor. E despertei três horas antes de ti. Cômico, não acha?
_ A força feminina! É o que nos mantém no poder!
Sua esposa era uma mulher de quase trinta anos de idade. Os efeitos do tempo, entretanto, inegavelmente eram muito gentis com ela. Aparentava ser dez anos mais jovem. A rainha chamava a atenção, sem sombra de dúvidas, pela beleza física: mulher de corpo esbelto, e de rosto tão atraente quanto.
Ele, enfim, deu início ao pronunciamento real. De cunho populista e com muita convicção em toda frase que proferia, ele exaltou a laicidade de sua monarquia. Alegou que não admitiria, nem por cima do seu cadáver, que a coroa compartilhasse o governo com o Papa. Como o de costume, apontou o dedo para a Igreja Católica, condenando-a pelo massacre estúpido daqueles que ela julgava como infiéis. Posteriormente, reiterou o seu compromisso com as camadas mais baixas da sociedade. Se auto-intitulou como o pai dos pobres. Alegou que reduziria o preço do trigo pela metade. E ganhou ainda mais a simpatia de seus ouvintes quando comunicou que distribuiria pães de forma gratuita em alguns pontos dos vilarejos de seu reino, garantindo o direito básico da alimentação para todos e todas. Penhorou, também, que os soldados, tanto os da elite quanto os do império, seriam valorizados e teriam a sua dignidade garantida. Afinal, segundo ele, na sua visão de governabilidade não existiam reis e capachos. Existiam seres humanos buscando um bem comum. E, finalmente, levantou a sua principal bandeira: garantiu que, enquanto ele tivesse a coroa sobre a sua cabeça, homens e mulheres seriam iguais. Os mesmos direitos. As mesmas funções. Os mesmos papéis na sociedade. Exaltou com as mais fascinantes palavras o arquétipo da mulher independente e empoderada. Discorsou primorosamente durante quase trinta minutos sobre a suma importância da equidade dos sexos em um meio social evoluído.
O povo foi ao delírio, como já era costumeiro no pós-dicurso do rei. O barulho era ensurdecedor. Toda gente gritava o seu nome à todo pulmão, confiando cegamente na benevolência de seu líder. Ele era uma unanimidade entre o povo. Não havia uma alma viva que abrisse a boca para reclamar de sua forma de reinar. De suas ideologias modernas. Era um verdadeiro rei hegemônico. O mais perto que se havia de Deus em solo terreno. Ele, por sua vez, sequer lembrava do que havia dito em seu discurso alguns minutos antes. Sua cabeça estava em outro lugar. Nas nuvens. Só conseguia pensar nas fartas moedas da corrupção caindo sobre suas mãos - que financiavam esbórnias, orgias, bebedeiras e afins suas, da rainha e de seus aliados mais próximos - e no futuro promissor de seu império populista, que em um dia não tão distante haveria de se expandir para os quatro cantos da Europa, em um reinado jamais visto antes na história da humanidade.
Assim que terminou o seu enunciado ao público, em meio aos berros que manifestavam apoio ao seu reinado, ele arregaçou a sua manga esquerda, revelando o mesmo o rei de espadas de outrora, a mesma carta que ele havia embebido no vinho. Ele havia a escondido em seu uniforme imperial quando saiu do salão real.
_ Vês isso, reizinho? Isso não é nada. É um grão de areia perto do império gigantesco que Júpiter te reserva. Terá o mundo aos seus pés, é inevitável. A ordem cósmica quis assim. As próximas maltas vão aprender sobre o seu nome. Sobre tudo que te envolve. E até sobre o seu sabor de licor preferido. E você? Você só deve saber o seu próprio nome. É o que mais importa. Reizinho, é assim que gira o ciclo da vida: manda quem pode, obedece quem tem juízo. E eles tem. Você vê cada vez mais de perto que tem. O universo deve respeito por aquele que já nasceu abençoado. E ninguém vai ser capaz de te impedir, reizinho. Ninguém. Nem mesmo Deus.
Obrigado por ler e aguardo ansiosamente pelo feedback! :)
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2019.04.20 23:57 Samuel_Skrzybski STEEL HEARTS - INTRODUÇÃO (PARTE 2)

O ano é 1420.
Em uma noite chuvosa, um homem encapuzado e vestido de preto dos pés à cabeça finta oficiais pasargadanos dentro do imenso e majestoso Castelo de Woodyard - antigo castelo da família Winchestter e, hodiernamente, a sede da Pasárgada. Por mais que se esforçassem, os soldados não conseguiam sequer triscar suas espadas e lanças nas vestes do invasor. Ninguém sabia como o misterioso homem havia driblado a segurança e adentrado no castelo da Pasárgada. E também não tinham nem noção de como para-lo: ainda que encurralado, o homem conseguia deslizar entre os seus perseguidores com agilidade jamais vista pelos mesmos, sem sequer sacar as duas espadas que levava às costas. O veloz sorrateiro passeou pelas salas do palacete e chegou ao trono do rei sem derramar uma única gota de sangue. Lá estava Matiza Perrier, sempre junto de sua esposa, Zoey Deschamps.
O sujeito se aproximou do rei da Pasárgada e prestou uma reverência à alteza, ainda sem proferir uma palavra sequer. Matiza, com seus longos cabelos negros e seu típico e habitual largo sorriso, debochou de seu exército, que não era capaz de frear as investidas de um simples plebeu. Descendo as escadas de seu trono dourado, Matiza disse aos seus comandados presentes na sala principal do palácio que ele mesmo despacharia o invasor, apunhalando a sua longa espada. O que a rainha e seus subordinados testemunharam nos 30 segundos seguintes beirava o insano.
Em menos de um minuto de confronto, o invasor desconhecido, com as mãos limpas, imobilizou Matiza Perrier. O rei, que era um exímio manipulador de armas brancas e que tinha em suas mãos uma montante suíça - uma espada imensa, que media nada mais nada menos do que um metro e meio - não teve chances contra os inacreditavelmente ligeiros ataques de seu adversário. Em questão de segundos e sob os olhares de sua esposa, Matiza Perrier foi completamente neutralizado. O comandante da Pasárgada riu do fato de ter sido derrotado em um combate por um popular. E, reconhecendo o talento incontestável de seu oponente, permitiu que este lhe dirigisse a palavra para revelar o que lhe trazia ao Castelo de Woodyard. O homem misterioso retirou o capuz e disse seu nome: Constantin Saravåj.
Saravåj discursou por alguns breves minutos ao rei da Pasárgada, dizendo que queria fazer parte dos ambiciosos planos pasargadanos de ter todo continente europeu aos seus pés. O homem - que já não era mais um garoto fantasista - afirmou que estava disposto a dedicar a sua vida inteira à sedenta ganância da Pasárgada. Sem tardar, as palavras de Saravåj convenceram Matiza Perrier, que foi contra a vontade de sua própria cônjuge e aceitou o desconhecido homem iugoslavo em seu exército. O comandante pasargadano, que costumava ser excessivamente seletivo na hora de escolher os seus soldados, mas impressionado como poucas vezes antes pela habilidade e destreza de Saravåj, não só admitiu o iugoslavo como um membro de honra de seu reinado como o fez um integrante da Elite Pasargadana. Na cabeça de Matiza, era preferível ter Constantin Saravåj como um aliado do que na oposição, afinal de contas, se tratava nitidamente de um homem perspicaz e perigoso.
A Elite da Pasárgada era um pequeno grupo de quatorze pessoas - agora quinze - que tinham funções-chave no governo pasargadano e que residiam no Castelo de Woodyard. Líderes militares. Administradores econômicos. Pessoas influentes. E, evidentemente, o rei e a rainha. Eram quem sabia e compactuava com toda sujeira que acontecia por baixo dos panos no governo de Matiza Perrier. E, dada a sua importância, os nobiliárquicos eram os pilares do presente e do futuro do império da Pasárgada: sempre que uma decisão importante pedia por ser tomada, uma reunião em mesa redonda era convocada com os integrantes da elite, para que estes entrassem em um consenso.
É interessante pôr em evidência que a fina flor da Pasárgada não era necessariamente composta por homens e mulheres capacitados e qualificados para seus respectivos cargos. A esmagadora maioria eram amigos pessoais do rei Matiza Perrier. Pessoas em quem ele confiava. Um misto de guerreiros, de fato, idôneos com cidadãos triviais e inseguros que apenas buscavam fama e poder. Naturalmente, a Elite também era composta pelas quinze pessoas mais beneficiadas com o capital desviado do povo de Acqualuza.
Saravåj foi encimado como o espião da Pasárgada e passou a usar o mesmo grande sobretudo branco de Matiza Perrier e dos principais membros pasargadanos, que levava um enorme "P" ao lado esquerdo do peito. O seu trabalho era o de apurar dados importantes dos territórios que faziam fronteira com a Pasárgada, se passando por um diplomata inglês, abrindo caminho para uma eventual invasão pasargadana. De todos os componentes da Elite Pasargadana, o iugoslavo era quem menos tinha contato com o rei. Talvez por passar mais tempo galgando de reino em reino em uma falsa missão diplomática do que no próprio território pasargadano. O único contato direto entre Saravåj e Matiza, em sua maioria, acontecia por meio de cartas ou bilhetes, com informações sucintas e diretas apuradas em terras que interessavam à Pasárgada. Na maior parte do tempo, o rei da Pasárgada sequer recordava de que Constantin Saravåj era um membro de seu esquadrão.
O guerreiro iugoslavo agia feito uma cascavel nas terras pasargadanas, esperando o momento certo para dar o bote. Mesmo após completos cinco anos da morte de Camilly Shaw, o peito do homem ainda somente conseguia abrigar raiva e rancor. Durante este meio tempo, o iugoslavo se absteve de todo e qualquer contato um pouco mais profundo com outro ser humano. Isolou-se em seus próprios pensamentos e focou unicamente em aperfeiçoar as suas técnicas de combate corpo a corpo, volta e meia invadindo e saqueando palácios, bancos e comércios dos burgueses para colocar a teoria em prática, sempre idealizando a queda da Pasárgada em seu horizonte. A medida que Constantin Saravåj arrombava portas, roubava sacos de ouro e assassinava nobres, ele tornava-se mais frio e incapaz de cometer erros ou sentir remorso.
Saravåj nunca conseguiu a total confiança e muito menos a amizade de Matiza Perrier ou de qualquer outro membro do alto escalão da Pasárgada. Mas, em contrapartida, da mesma forma, nunca esteve sob desconfiança. Aos olhos dos pasargadanos, Saravåj era um homem de poucas palavras, sempre com o rosto fechado e quase que invisível, mas que sempre arcava com as suas obrigações com rara eficiência.
Foi então que, sob a escuridão de uma fria madrugada, o guerreiro iugoslavo aproveitou-se de sua camuflagem natural entre os pasargadanos e da sua vasta experiência com roubos e furtos para saquear discretamente um cilindro metálico de acetileno, do depósito do Castelo de Woodyard. O acetileno é um gás impossível de ser avistado a olho nú e extremamente inflamável, usado na época, principalmente, como bomba.
O plano de Saravåj era, desde que colocou os pés pela primeira vez no palacete da Pasárgada, ter em mãos e explodir um cilindro médio de acetileno, causando um incêndio sem precedentes no Castelo de Woodyard. Com as chamas se espalhando pelas cortinas e pelos móveis de madeira refinada, Saravåj iria valer-se da confusão generalizada instalada pelo fogo entre as tropas pasargadanas para chegar até a sala do trono, da mesma forma que fez na noite em que ficou frente a frente com o comandante da Pasárgada pela primeira vez, e enfim, assassinaria o rei Matiza Perrier. Deixar o trono pasargadano vazio seria como jogar queijo aos ratos: por mais que, na teoria, Zoey Deschamps tivesse o apanágio de se tornar a rainha soberana após o falecimento de seu marido, os sobreviventes da avarenta nobiliarquia da Pasárgada, incapazes de entrar em concordância, dariam o pontapé inicial de uma disputa incessante pelo poder, instaurando assim, por mais uma vez, um governo instável sobre as terras de Acqualuza. Enquanto os monarcas pasargadanos testilhariam pelo domínio do império da Pasárgada, Saravåj abandonaria o seu fajuto lugar na Elite Pasargadana para se instalar no forte reino militar da Germânia, em uma crucial e sincera missão diplomática.
O reino da Germânia, do arrogante e egocêntrico rei Lindner Laiterberg, era o único governo que ainda era capaz de bater de frente com o império da Pasárgada. Em um cenário que contava com uma Inglaterra desestabilizada após uma série de escândalos envolvendo o governo de Sabino III e com o leste europeu cada vez mais mergulhado em uma profunda crise econômica, a Germânia, célebre por seu grande e organizado exército de soldados, era a única pedra no sapato da Pasárgada, que já havia tomado a Gália, a Catalunha e Coimbra (atual Portugal) para si, além de ter ao seu favor os abundantes recursos naturais da Península de Acqualuza. O clímax do plano de Saravåj contra a Pasárgada era agir em conjunto com Lindner Laiterberg, aproveitando-se da prepotência do mesmo. O guerreiro iugoslavo tinha em mente denunciar a fragilidade momentânea do reino pasargadano ao rei da Germânia, instigando-o a usar esta oportuna situação à seu favor para invadir as terras pasargadanas, que sequer contariam com um rei para mobilizar as suas tropas visando se defender, para assim, no fim das contas, tomar o vasto reino da Pasárgada para si. Sem a presença de um governo e com o foco voltado para um briga de interesses interna, a Pasárgada estaria totalmente desprevenida diante do ataque e deveria ser esmagada pela robusta hoste germânica em questão de semanas.
Após a queda pasargadana, Laiterberg certamente não se sairia bem em sua primeira experiência como imperador, ao ver tantos territórios sob sua responsabilidade. E, no decorrer do efeito dominó, sob a tutela de um regime menos sólido e menos rigoroso em relação à Pasárgada, cidadãos subversivos gauleses, catalães e coimbrenses provavelmente dariam início a um natural processo de revolução e independência, que tinha tudo para ser bem-sucedido. Mas, em todo caso, ainda que o monstro europeu se tornasse a Germânia e esta viesse a concretizar o plano de colocar a Europa inteira de joelhos, que no princípio era pasargadano, pouquíssimo importava para Constantin Saravåj. Contanto que ele pudesse usar o exército germânico como fantoche para massacrar a Pasárgada e devolver na mesma moeda o calvário que o reino de Matiza Perrier o fez passar há exatos cinco anos, não era significativo o final daquele roteiro. O planejamento de Saravåj não era perfeito e estava recheado de brechas. Mas havia chegado o momento de contar com o acaso - ou com a justiça divina, se esta de fato fosse real. Inspirado na CAJA, o iugoslavo definiu data e hora para realizar a sua conflagração.
Tudo caminhava como o articulado por Saravåj, até que, durante uma noite, o guerreiro despertou em seu quarto no Castelo de Woodyard com uma mão sobre a sua boca. Sem pensar duas vezes e em um movimento rápido e violento, o iugoslavo, em questão de segundos e sem dar tempo de reação ao seu oponente, levantou-se ferozmente e prensou o invasor contra a parede, batendo com força o corpo do desconhecido contra a madeira fina da parede de seu quarto. Mesmo em meio ao breu da madrugada, pôde identificar o rosto familiar: Randolph Mayoral. Inglês com descendência catalã, era o braço-direito de Matiza Perrier e comandante geral do exército da Pasárgada, além de ser a pessoa mais próxima do rei, em quem Matiza Perrier confiava cegamente. Cochichando para evitar chamar a atenção dos guardas noturnos, Saravåj perguntou à Randolph quais eram as suas intenções ali. Randolph Mayoral levantou as suas mãos calmamente, em um gesto de rendição, e afirmou que tinha o melhor dos propósitos. Estava ali para fazer um acordo. Saravåj soltou Randolph, que começou a caminhar lentamente pelo pequeno quarto enquanto falava. O inglês disse que estava observado Constantin Saravåj há algum tempo. Para ele, toda incógnita que envolvia o iugoslavo deixava evidente que este mesmo tinha segundas intenções nas terras pasargadanas. Randolph alegou que foi um espectador do furto de Saravåj ao depósito de Woodyard.
Neste instante, o iugoslavo arregalou os olhos e viu os seus cinco anos de planejamento se esvairando diante de si. Percebendo a aflição de Saravåj, Randolph riu e prometeu que não havia procurado pelo iugoslavo para fazer chantagens. O braço-direito de Matiza Perrier disse que também estava arquitetando uma rebelião contra a Pasárgada. Revelou que não considerava Matiza como digno de liderar um império tão poderoso como o pasargadano. Afirmou que não considerava como justo que Matiza Perrier, um mísero coitado que via a si mesmo como uma figura divina na Terra, tivesse tanta sorte. Sorte para ter metade da Europa à sua disposição. Sorte para ter seus pés beijados pelo povo da Península de Acqualuza, por mais que fosse o verdadeiro carrasco destes mesmos. E sorte para ter uma mulher maravilhosa ao seu lado - a quem ele traía constantemente e abertamente. Randolph Mayoral invejava Matiza Perrier, e estava somente esperando o momento adequado para derrubar o atual rei da Pasárgada de seu pedestal. Saravåj sorriu e disse para Randolph que seria uma honra tê-lo como aliado na revolta contra a Pasárgada.
De imediato, Randolph teceu as suas mudanças na estratégia de Constantin Saravåj: nada de acetileno, explosões ou chamas se alastrando pelo castelo. O inglês preferia optar por preservar o patrimônio histórico, mas sem deixar de lado a matança: o plano de Randolph era fazer do motim contra o governo de Matiza Perrier um enorme e sanguinário espetáculo teatral. Sobretudo, o delineamento do inglês se baseava em fazer com que os seus mais competentes e confiáveis soldados, integrantes do próprio exército nobre pasargadano, dos quais Randolph Mayoral era o capitão, penetrassem na sede da Pasárgada travestidos de cidadãos acqualuzenses, causando um alvoroço absoluto no esquadrão de guerreiros pessoais de Matiza Perrier, que seria atacado de surpresa. Não seria uma tarefa difícil convencer os guerreiros a virarem as suas costas para o rei com ilusórias propostas, envolvendo ouro e reconhecimento. Sem os seus habituais uniformes, com vestes de pano, portando espadas de ferro barato e com o hino de guerra "OS MONARCAS NÃO NOS AJUDAM!", em alusão à revolução de 1416, os súperos oficiais de Randolph Mayoral teriam a falsa invasão ao Castelo de Woodyard facilitada por ele próprio, que sabotaria as principais entradas do palacete - tarefa que Randolph dividira com Constantin Saravåj. Já dentro do palácio pasargadano, os hábeis oficiais de Randolph, sob a fantasia de militantes do povo de Acqualuza, repetiriam o Domingo Sangrento. Seria acrescida mais uma noite de chacina aos nobres na história da Península de Acqualuza.
O que por trás das cortinas era uma traição ao rei minuciosamente calculada pelos membros do mais alto escalão da Pasárgada, Randolph Mayoral e Constantin Saravåj, aos olhos da Pasárgada, do povo e de toda Europa teria todos os componentes de uma inesperada revolta popular. Seria a explicação mais plausível e não haveriam motivos para suspeitar-se de que Matiza sofrera uma apunhalada pelas costas de um próprio oficial pasargadano, fazendo com que a emboscada de Randolph e Saravåj passasse despercebida por todos. No desfecho, os planos dos dois integrantes da Elite eram idênticos: culminariam com a morte do atual rei da Pasárgada e com o abalamento absoluto da mesma. Saravåj animou-se, elogiou e acatou o planejamento de Randolph Mayoral, e ambos consolidaram a improvável aliança com um firme aperto de mão. Com o sol já nascendo ao Leste, Constantin Saravåj fez questão de abrir a porta de seu quarto para seu cúmplice, para que, a partir do instante em que Randolph cruzasse a porta, ambos dessem início aos preparativos da cova de Matiza Perrier.
Eram quase cinco horas da manhã. Quando enfim pôde voltar para sua cama, Saravåj sentiu um peso de duas toneladas sob seu travesseiro. O iugoslavo sabia que não podia confiar em Randolph Mayoral. Ficava óbvio nos olhos do inglês que o seu plano da rebelião contra a Pasárgada tinha um fundo falso. A real intenção de Randolph era sentar-se no trono vazio da Pasárgada depois da morte de Matiza Perrier, a quem ele fingia admirar. Disso, Saravåj não duvidava: Randolph, de fato, faria tudo o que fosse necessário para ter a Europa inteira à sua disposição. Para ter os seus pés beijados pelos cidadãos da Península de Acqualuza, por mais que fosse o verdadeiro carrasco destes mesmos. E para ter Zoey Deschamps - que era uma bela e formosa mulher - como sua esposa. Chegava a ser ridículo de tão óbvio. Trocar Matiza Perrier por Randolph Mayoral seria o mesmo que trocar seis por meia dúzia. Sob a visão de Saravåj, Randolph nada mais era do que uma versão menos ingênua do atual rei da Pasárgada. Para que o plano do guerreiro iugoslavo tivesse sequência, o trono pasargadano deveria permanecer vago. Se Randolph Mayoral se auto-coroasse rei da Pasárgada, o seguimento do planejamento de Saravåj perderia o sentido. Saravåj tinha que encontrar uma forma de matar dois coelhos com uma tacada só e tirar tanto Matiza quanto Randolph de seu caminho na noite da fajuta revolta contra o governo pasargadano. Para isso, Saravåj seguiu com a sua encenação. Fingiu ser um leal companheiro de Randolph Mayoral até o dia 11 de Abril de 1420, que, por ironia da vida, era exatamente o mesmo que o inglês fazia com o rei Matiza Perrier.
Eram sete horas da noite. Por coincidência do destino, mais uma vez em uma noite chuvosa, uma tropa de mais de cem homens vestindo roupas simples conseguiu arrombar a principal entrada do Castelo de Woodyard, avançando violentamente dentro deste mesmo pelo salão principal, aos berros. A guarda do castelo foi pega completamente desprevenida. Teoricamente, a segurança deles deveria estar garantida pelos altos e fortes portões de madeira do palacete. Muitos dos guerreiros de Matiza Perrier sequer estavam com suas armas de combate em mãos quando os revolucionários adentraram em Woodyard. Era inegável que Randolph Mayoral sabia como capacitar um esquadrão. Os supostos invasores acqualuzenses avançavam rapidamente dentro da sede da Pasárgada, dizimando sem fazer muito esforço as tropas pessoais de Matiza Perrier.
Naquele mesmo instante, no ponto mais alto do palacete de Woodyard, todos os componentes da Elite Pasargadana - todos, exceto um - estavam reunidos, na habitual mesa redonda de mármore, já cientes de que estavam diante de um ataque de seus próprios cidadãos. Eram várias as perguntas sem respostas. Teria o povo enfim descoberto sobre a corrupção pasargadana? Era a explicação mais verossímil para uma revolta tão repentina. Mas como? Haveria então um traidor infiltrado entre eles naquela sala? Inúmeros integrantes do alto escalão da Pasárgada exaltaram-se e encheram o peito para apontar dedos uns aos outros, fazendo acusações sem provas nem fundamentos. No meio do tumulto, estava o próprio mentor da investida contra os pasargadanos que acontecia alguns andares abaixo dos mesmos. E foi exatamente Randolph Mayoral quem acalmou os ânimos de seus colegas da nobreza com discursos repletos de cinismo. Randolph afirmou que, como Comandante Máximo do Esquadrão de Elite da Pasárgada, era seu dever expor-se ao perigo e descer ao salão principal do palácio para movimentar o exército da Pasárgada, na tentativa de evitar que o desastre alcançasse proporções ainda maiores, sempre em companhia de seu co-comandante, Marcell Cabral. O poderoso homem que estava sentado no centro da mesa redonda, Matiza Perrier, concordou prontamente com Randolph Mayoral.
Marcell Cabral, catalão de origem que foi criado na Inglaterra após ser rejeitado por seus próprios pais, era um amigo de infância de Matiza e um dos membros pioneiros da Elite da Pasárgada. Todavia, do mesmo modo, era um dos integrantes menos importantes e favorecidos do seleto grupo dos "quinze". O comandante pasargadano arrependeu-se amargamente de ter nomeado Marcell Cabral como integrante de seu alto esquadrão. Matiza Perrier julgava o catalão como inapto e intelectualmente muito abaixo dos demais. De fato, Marcell era um garoto inseguro e introvertido, que não demonstrava vocação em nenhuma área do militarismo. Tinha pouca intimidade com armas de combate e também não tinha desenvoltura suficiente para se tornar diplomata ou governante. Geralmente, era isento nas tertúlias da Elite Pasargadana e sequer opinava. Por fim, escondeu-se como co-comandante do primeiro escalão do exército pasargadano, em uma função que se simplificava a somente acompanhar o comandante supremo Randolph Mayoral. Exerceu essa função como pôde, por anos. Até aquela noite.
Enquanto desciam a sequência de escadas do Castelo de Woodyard, Randolph apunhalou Marcell covardemente, pelas costas. Com um pequeno e afiado punhal em mãos e com o catalão já agonizando no chão, o inglês esfaqueou Marcell Cabral mais uma vez, desta vez cirurgicamente na veia jugular de seu pescoço, dando um rápido e trágico fim ao sofrimento de Marcell. Marcell Cabral, por mais que fosse facilmente maleável, era uma testemunha em potencial do golpe contra o rei Matiza Perrier. O corpo sem vida do jovem catalão, em poucos segundos, foi coberto por uma grande poça de sangue, que pingava lentamente gotas cor vermelho-vivo entre um degrau e outro.
Randolph Mayoral, disposto a realizar barbaridades em nome do assassinato de Matiza, na intenção de usurpar o trono da Pasárgada do mesmo, passou a comandar os seus homens de perto quando chegou ao palácio principal. No salão, abriu um grande sorriso quando avistou incontáveis guerreiros que levavam a letra "P" ao peito caídos no chão, já sem vida. O Exército de Elite da Pasárgada, disfarçado de indignados representantes do povo da Península de Acqualuza, por mais que fosse menor em quantidade, se fazia maior em sua força de combate. Era só uma questão de tempo até que os rebeldes progredissem até a sala do rei e tivessem a cabeça de Matiza em suas mãos. Era nítido que o exército de Matiza Perrier estava desorganizado e, acima de tudo, amedrontado. Totalmente incrédulo de que o que estava acontecendo era real.
Entretanto, poucos minutos depois de Randolph chegar ao palácio principal e começar a proferir palavras de ordem aos invasores, pôde-se ouvir um estrondo ensurdecedor. Como um trovão que caíra dentro do Castelo de Woodyard ou como uma bomba que acabara de explodir nas proximidades do palácio. Após o barulho, soldados dos dois lados do campo de batalha permaneceram estáticos. Randolph Mayoral tentava disfarçar a sua inquietação mordendo os lábios. Ninguém conseguia imaginar o que poderia ter ocasionado um som tão alto e agudo. Foram segundos de tensão no palacete de Woodyard, até que, pasargadanos e acqualuzenses sentiram um calor descomunal em seus corpos. A temperatura do ambiente subiu aceleradamente. E quando os guerreiros, enfim, olharam para os lados, observaram chamas se alastrando pelas quatro paredes do palácio principal. Com seus olhos refletindo o fogo ardente, Randolph Mayoral não teve dúvidas: Saravåj havia quebrado o pacto.
O inglês permaneceu inerte, sem sequer morder os lábios desta vez. Constantin Saravåj havia colocado tudo a perder. Observando os seus homens lutando contra um adversário a mais, Randolph foi forçado a admitir em poucos minutos que a operação que prometia ser o pontapé inicial de um eventual governo pasargadano sob sua tutoria havia fracassado. Randolph Mayoral, enfim, tomou a relutante decisão de ir na mão contrária de todo pensamento que havia passado pela sua cabeça nas últimas semanas e rugiu para todas paredes do saguão principal, ordenando que os revolucionários cessassem a invasão. Os soldados da Elite Pasargadana, ainda travestidos de cidadãos de Acqualuza, retardaram para compreender o comando. O comandante do Exército de Elite da Pasárgada organizou o seu pelotão e mudou o alvo dos guerreiros: a meta, a partir daquele instante, era defender a sala real e caçar o atual espião da Pasárgada por todo metro quadrado do palacete. Randolph não sabia exatamente quais eram as intenções de Saravåj com o incêndio, mas era evidente que àquela altura do campeonato o iugoslavo era mais um inimigo do que qualquer outra coisa. Um grande ponto de interrogação invadiu o inconsciente de todos aqueles homens com vestes de pano de segunda sujas com sangue. Chegava a ser paradoxal. Há alguns minutos atrás, todos eles estavam dando a alma para assassinar Matiza Perrier a todo custo. E agora, por mais controverso que soasse, a missão era proteger o mesmo Matiza Perrier. E como se não bastasse, nenhum dos pasargadanos sabia com precisão quem era o responsável pela espionagem na nobiliarquia da Pasárgada. Nenhum daqueles homens tinha a mínima noção de quem era Constantin Saravåj Mandragora. Tão perdidos quanto os soldados pessoais de Matiza, os homens do Exército de Elite da Pasárgada tentaram seguir à risca a determinação de seu capitão, ignorando as chamas que se dispersavam pelas paredes como se houvesse um dragão feroz dentro do Castelo de Woodyard.
Alguns andares acima, Constantin Saravåj vivia um déjà vu após explodir com sucesso o cilindro de acetileno. O iugoslavo, ainda vestindo o sobretudo branco pasargadano, fintava os mais competentes combatentes da Pasárgada - tanto os que usavam fardamento quanto os que usavam trapos - e dançava com o fogo. Com a mesma velocidade anormal da noite em que invadiu Woodyard pela primeira vez, Saravåj concentrava todos os seus esforços em chegar no trono do rei antes dos pasargadanos. Matiza não podia fugir. Os seus cinco anos de planejamento dependiam apenas de sua competência. O espião conhecia o palácio como a palma de sua mão e não demorou muito até que Saravåj, se livrando de todos homens da Pasárgada sem nem mesmo colocar as suas mãos nas duas espadas que carregava nas costas, chegasse com êxito ao luxuoso salão de Matiza Perrier.
Contudo, lá o guerreiro iugoslavo somente pôde observar chamas. Nos quatro cantos da sala. O fogo consumia com voracidade todo móvel de madeira refinada. Subia rapidamente pelas enormes cortinas vermelhas. Derretia todo ouro que havia ali por puro capricho. Mas o trono estava vazio. Não havia nenhum rei. Não havia cetro de ouro, nem manto real. O comandante da Pasárgada não estava ali. Matiza Perrier havia conseguido driblar o incêndio e foi bem-sucedido em sua fuga, sem deixar quaisquer vestígio. Saravåj caminhou vagarosamente até o meio da sala real, tremendo, desconsiderando a temperatura-ambiente absurdamente alta. O iugoslavo olhava em câmera lenta para todos os lados, como uma criança que conhece um lugar pela primeira vez. O curto fio de esperança que dizia para o coração de Constantin Saravåj que tudo daria certo calou. Aquela sala vazia era o seu segundo calvário. Aquela mesma sala onde ele havia colocado Matiza Perrier no chão em poucos segundos. O iugoslavo sentiu a solidão monstruosa de estar sozinho com as chamas. No meio do salão, agachou e levou as mãos ao rosto, como se fosse desabar em lágrimas. E soltou um berro desumano.
As tropas pasargadanas se mobilizaram e controlaram o fogo em poucas horas. As perdas materiais foram inestimáveis. O aroma de cinzas corria por todas as salas do palácio. Muitos integrantes da Pasárgada tiveram os seus corpos degenerados pelo fogo e muitos mais tiveram o seu peito transpassado pelas espadas dos rebeldes. Foram quase mil baixas humanas para a Pasárgada, incluindo Marcell Cabral, membro da elite. Foi a maior chacina ante os monarcas desde o Domingo Sangrento.
Ainda antes que o dia se desse por terminado, o soberano Matiza Perrier não tardou para convocar uma assembleia imediata com todos os quinze membros da Elite Pasargadana. Ainda não estava claro na cabeça do rei o que havia acontecido naquela noite. Uma revolta popular? Mas por que? Como simples camponeses sabotaram a entrada de Woodyard? E como conseguiram causar um incêndio em proporções tão catastróficas? Uma pergunta levava a outra e nada parecia fazer sentido. O rei sabia que decisões pediam por serem tomadas, mas sequer sabia quais eram elas. Todos pasargadanos necessitavam clarear as suas ideias.
Na tradicional mesa redonda, Matiza, em sua primeira fala, ensaiou um fingido discurso de condolência a Marcell Cabral, pelos simbólicos serviços prestados pelo mesmo antes de sucumbir em combate - como se o catalão tivesse sido realmente primordial e valorizado dentro da Pasárgada. Após uma hora de debate, todos os nobres entraram em concordância. Na teoria proposta por Matiza Perrier, um pequeno grupo de revolucionários acqualuzenses, de fato, havia se rebelado e tentado derrubar o governo da Pasárgada naquela noite. A revolta popular era a explicação mais sã, embora fosse impossível dizer como os camponeses levaram tanta vantagem sobre soldados do mais alto escalão da elite pasargadana e de onde vieram as chamas que percorreram o palacete. O plano dos rebeldes clandestinos havia, sem sombra de dúvidas, sido muito bem arquitetado. Com isso, o alerta de Matiza e da Pasárgada foi ligado: existiam pessoas descontentes com o governo pasargadano vigente dentro da Península de Acqualuza. Era difícil saber quem eram e quantos eram. Mas, aparentemente, alguns cidadãos acqualuzenses tinham descoberto o antídoto para a cegueira social que a Pasárgada enraizou naquela região. Agora também haviam vozes contra os pasargadanos. O rei da Pasárgada não podia ir contra os seus fictícios ideais democráticos e simplesmente determinar a árdua perseguição de todos os seus opositores políticos. Matiza, prezando pela sua boa imagem perante o povo, deu carta branca para que os soldados da Pasárgada dessem um fim traumático a todo tipo de agitação revolucionária, mas como sempre, por trás das cortinas e embaixo dos panos. Com a cara limpa, o comandante continuaria discursando de modo hipócrita aos populares sobre a importância da pacificação e do direito igual a todos os cidadãos.
Na realidade, Matiza Perrier declarou guerra a um adversário inexistente: a alienação do povo seguia perfeita. O seu verdadeiro inimigo estava muito mais próximo do que ele podia imaginar. Randolph Mayoral, sempre presente à direita do rei, somente concordou com a cabeça com tudo o que Matiza Perrier expôs e deu gargalhadas falsas das piadas de péssimo gosto que o rei pasargadano emendava entre uma frase e outra.
Contudo, antes que a reunião da Elite da Pasárgada se desse por encerrada, Matiza Perrier percebeu pela primeira e única vez que havia uma cadeira vazia entre eles. Uma cadeira escondida à direita, no fundo. Era onde deveria se fazer presente o iugoslavo Constantin Saravåj. Milhares de hipóteses invadiram os pensamentos do rei pasargadano naquele momento. Talvez Saravåj tivesse tido o mesmo infeliz fim de Marcell Cabral durante a invasão dos rebeldes. Ou quiçá o guerreiro iugoslavo, sempre tão misterioso e retraído, fosse o artífice da agitação do povo acqualuzense contra os pasargadanos, instruindo os cidadãos da península em oposição à Pasárgada após denunciar aos populares a corrupção furtiva da administração de Matiza Perrier. Ou então o ex-espião pasargadano simplesmente tivesse se aproveitado do alvoroço para abandonar a Elite da Pasárgada sem dar satisfações para ninguém e dar novos rumos para a sua vida em outro lugar. Por mais que fosse divertido criar explicações para o sumiço do iugoslavo, o paradeiro de Constantin Saravåj era insignificante para Matiza, desde que este não cruzasse o caminho da Pasárgada mais uma vez. O essencial era que a Pasárgada seguisse mais forte do que nunca. Afinal, o trono de Matiza Perrier persistia intacto e o seu governo tinha cada vez mais o clamor popular. Os pasargadanos caminhavam a passos largos rumo ao seu lugar ao sol no velho continente. A Europa logo contemplaria o maior império que a humanidade já viu. Era apenas questão de tempo. Por mais injusto que fosse, Matiza Perrier tinha impreterivelmente o mundo em suas mãos.
Algumas horas depois da revolta dos cidadãos contra os pasargadanos, nas redondezas do Castelo de Woodyard, um homem encapuzado, vestido de preto dos pés à cabeça, fingia ler um jornal britânico em uma casa noturna. O sujeito somente passava os seus olhos nos letreiros do folhetim, enquanto se concentrava na conversa de dois homens que bebiam rum ao seu lado. Os amigos comentavam sobre o incêndio na sede da Pasárgada. Por mais que o fogo tenha se alastrando por boa parte do palacete, os representantes do governo pasargadano afirmaram que a gênese das chamas fora uma simples vela que caiu acidentalmente sobre uma majestosa cortina de tecido fino. Era óbvio. A Pasárgada não queria demonstrar instabilidade em seu governo.
O homem misterioso já havia escutado o suficiente. Ele levantou-se e se sujeitou ao chuvisco daquela madrugada. O indivíduo caminhou calmamente por alguns minutos, até que parou no exato lugar que deveria representar a linha imaginária que dividia a Península de Acqualuza, na Catalunha, e a vila de Balistres, na Gália. Exatamente na fronteira, o homem retirou o seu capuz, suspirou fundo, como nunca havia suspirado em toda sua vida e voltou os seus olhos ao céu, que abrigava milhões de estrelas naquela noite. O seu nome era Constantin Saravåj.
Naquela mesma noite, à alguns quilômetros do Castelo de Woodyard, uma artista nômade gaulesa que viajava pela Europa levando espetáculos artísticos para zonas periféricas deu a luz à sua primeira filha. A criança nasceu forte e saudável, e logo passou para os braços do pai, também um artista gaulês que partilhava da mesma ideologia de sua mulher. A menina erradiava alegria e paz com o seu choro de vida.
O seu nome era Anne.
A criança da profecia.
[Para os mais espertinhos: eu sei, a Iugoslávia só se formou no começo do século XX, após a Primeira Grande Guerra. A minha trama, de facto, se vale de alguns fatos históricos, como a Idade Média, a conjuntura social desta época e de regiões como a Gália e a Germânia, mas não tem exatamente um compromisso com a história como nós conhecemos. Eu queria um país que aglomerasse toda a região dos Bálcãs para ser o berço do Saravåj, e, talvez por falta de criatividade no momento, batizei essa região de Iugoslávia. Posteriormente, pode ser que eu chame essa tal "Iugoslávia" por outro nome, pra fugir desse impasse - e eu tô totalmente aberto a sugestões, hein. Para os mais espertinhos ainda: eu também sei, o acetileno só foi descoberto em 1800 e tantos. Como eu disse: o universo de Steel Hearts tem a sua própria história alternativa e uma realidade diferente da nossa - e isso serve para qualquer outra dissonância histórica na minha trama].
Obrigado por ler e aguardo ansiosamente pelo feedback! :)
submitted by Samuel_Skrzybski to EscritoresBrasil [link] [comments]


2019.02.27 00:06 TangoGV Muita gente reclamando do slogan de campanha. Ninguém reclamando da violação do estado laico.

Então o governo Bolsonaro, na pessoa do seu ministro da educação, deu a bola fora de pedir às escolas para filmarem crianças cantando o hino com o slogan da campanha do atual presidente. Está em todas as mídias.
O MEC já voltou atrás, verdade, mas muita gente continua reclamando. O que me incomoda é que no meio de tantas reclamações não há ninguém falando do elefante na sala, que é um governo colocar em letras garrafais a frase:
"Brasil acima de tudo. Deus acima de todos."
O Brasil nunca foi um estado laico, mas ao menos não costumava ser declaradamente religioso. Em quatro anos a constituição vai acabar substituída pela bíblia católica.
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2018.07.02 13:06 LuccaSSC Rancho de Amor à Ilha: O hino mais bonito do Brasil

Eu tava procurando hinos quando me deparei com o hino de Florianópolis, a minha cidade-natal. Eu conhecia o hino e lembrava vagamente da letra, mas ouvindo ele de novo percebi o quão lindo ele é.
Aqui o link: https://www.youtube.com/watch?v=bcHL_tQ9ISY
A letra:
Um pedacinho de terraPerdido no marNum pedacinho de terraBeleza sem parJamais a naturezaReuniu tanta belezaJamais algum poetaTeve tanto pra cantar
Num pedacinho de terraBeleza sem parIlha da moça faceiraDa velha rendeira tradicionalIlha da velha figueiraOnde em tarde fagueiraVou ler meu jornal
Tua lagoa formosaTernura de rosaPoema ao luarCristal onde a lua vaidosaSestrosa, dengosaVem se espelhar
Eu gosto como, ao invés de ressaltar as conquistas de Florianópolis e mostrar a cidade como a cidade vitoriosa (que é), como faz a maioria dos hinos, o compositor ressalta a beleza natural e a riqueza cultural da cidade. Pra quem não sabe, eu explico cada parte:
"Um pedacinho de terra perdido no mar": Florianópolis é uma ilha "Ilha da moça faceira, da velha rendeira tradicional": É um contraste entre a modernidade (a moça faceira seria uma jovem que vai pra festas e tal) e a tradição (a velha rendeira é uma referência à renda de bilro). "Ilha da velha figueira": A Praça XV de Novembro, em Florianópolis, tem uma figueira centenária no centro, que é um dos cartões postais da cidade. "Em tarde fagueira vou ler meu jornal": A Praça XV, como dá pra ver na foto acima, é um lugar aonde os florianopolitanos (geralmente os mais idosos) vão para descansar, conversar, ler jornais, etc. "Tua lagoa formosa": Referência à Lagoa da Conceição, outro cartão postal da cidade.
E então, o que vocês acharam do hino de Florianópolis? Tem algum outro hino que vocês acham muito bonito?
submitted by LuccaSSC to brasil [link] [comments]


2018.05.29 20:14 SoldadoTrifaldon URGENTE Intervensão Militar no r/brasil é eminente!

URGENTE
Um comboio da 61º Batalhão de Infantaria de Selva está se deslocando em direção a Base de Santa Maria no RS ah 250 km do maior Quartel do Brasil que fica em Santo Ângelo, levando inúmeros blindados e munições, não fixo. Com 200 caminhões. Segundo um amigo meu disse: " Esdras não estamos fazendo instruções e nem deslocamento logístico, mas sim nos preparando pq corda estourou com o brasil, recebemos através de um boletim do alto comando do Ex, do QG DA 5ª REGIÃO, uma ordem de PDN.(Plano de Defesa Nacional)."
Segundo fontes que não irei revelar por questão de segurança. General Villas Boas, está na região Sul e chamou General de área Mourão Filho e usou à seguinte expressão: " Essa moderassão do. brasil não dá mais, a paciência acabou e chegamos no limite"!!
Então pessoal repasse essa informação, pois ela procede sim, e vc não lerá isso em jornais comprados !!!
O TRANCO SERÁ FORTE !!!
Agora o negócio é o seguinte renúncia do senhor tetirezas e todos os moderadores do brasil em toda a as esferas. Todos entregarem o seu cargo de imediato. O exército já está disposto a tomar o sub basta um pedido da população. A hora é agora cada um cidadão brasileiro fazer a sua parte ou seja repassar para todos os seus subs que vc eh inscrito. Assim em poucos minutos ou horas todo o rédite estará ciente . Se você quer que esses bandidos continuem basta dar baixovoto. Se quer o bem para o sub do pais cimavote imediatamente. Vamos em frente igual fala a letra do hino nacional GIGANTE PELA PRÓPRIA NATUREZA. VAMOS NESSA PESSOAL. EU LI AGORA E JÁ CIMAVOTEI.
submitted by SoldadoTrifaldon to circojeca [link] [comments]


2018.05.28 15:37 eSanches GIGANTE PELA PRÓPRIA NATUREZA 🔪💀

Urgente:
Um comboio da 61º Batalhão de Infantaria de Selva está se deslocando em direção a Base de Santa Maria no RS ah 250 km do maior Quartel do Brasil que fica em Santo Ângelo, levando inúmeros blindados e munições, não fixo. Com 200 caminhões. Segundo um amigo meu disse: " Esdras não estamos fazendo instruções e nem deslocamento logístico, mas sim nos preparando pq corda estourou, recebemos através de um boletim do alto comando do Ex, do QG DA 5ª REGIÃO, uma ordem de PDN.(Plano de Defesa Nacional)." Segundo fontes que não irei revelar por questão de segurança. General Villas Boas, está na região Sul e chamou General de área Mourão Filho e usou a seguinte expressão: " Não dá mais, a paciência acabou e chegamos no limite"!! Então pessoal repasse essa informação, pois ela procede sim, e vc não lerá isso em jornais comprados !!! O TRANCO SERÁ FORTE !!! Agora o negócio é o seguinte renúncia do senhor Michel Temer e todos os ministros de estados em toda a as esferas. Todos entregarem o seu cargo de imediato. O exército já está disposto a tomar o país basta um pedido da população. A hora é agora cada um cidadão brasileiro fazer a sua parte ou seja repassar a todos os seus contatos. Assim em poucos minutos ou horas todo o país estará ciente . Se você quer que esses bandidos continuem basta deletar. Se quer o bem de seu pais repasse de imediato a todos seus contatos. Vamos em frente igual fala a letra do hino nacional GIGANTE PELA PRÓPRIA NATUREZA. VAMOS NESSA PESSOAL. EU RECEBI AGORA E JÁ MANDEI A TODA MINHA LISTA .
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2016.04.28 07:15 fillingtheblank Que músicas falam dos problemas do país e dos sofrimentos do povo brasileiro?

-- O que segue é uma troca com comentários sobre uma veia importante mas às vezes esquecida da nossa música nacional. --
.
Como diz o título, estou procurando o "blues" brasileiro, mas não no sentido de um gênero musical - pode ser qualquer coisa: rock, hiphop. sertanejo, mpb, bossanova, samba, xote etc. No sentido da manifestação das mazelas, dores e dificuldas que a arte expressa sobre o povo (como o blues fez muito nos EUA, historicamente, e hoje o rap e rock).
Que músicas mexem com vocês quanto as questões dos problemas, históricos ou específicos de uma época, do país ou do povo?
Como exemplos, eis uma mini-playlist das que me tocam:
"Moer Cana" - Chico César
Não consegui encontrar a versão original do próprio artista, que considero superior. Está no álbum 'De uns tempos pra cá'. A maioria conhece Chico César como músico, mas antes disso e ainda hoje ele é um poeta com livros publicados. Impressionantemente consegue conjugar com sucesso e beleza, em minha opinião, ambas facetas. O que é muito difícil. Negro nascido no interior da Paraíba, imigrado depois para a zona industrial do sudeste em adulto, acho que sabe do que está cantando. Um dos meus artistas preferidos. Essa música não é famosa, mas mexe comigo.
"Pau de Arara" - Carlos Lyra & Vinícius de Moraes
Muito infelizmente, não encontrei uma versão original ou mesmo boa no YouTube, mas se puderem ouçam a interpretação do Sérgio Cassiano no Spotify ou outro. Grande composição de Vinícius, que sabia virar mulher, negro, índio, sulista... qualquer ser humano, ao compor.
"Gente Humilde" - escrito por Garoto, V. de Moraes e C. Buarque
Sutil, singela, forte e emotiva. Um haikai musical do Brasil, praticamente.
"Meninos do Brasil" - Mano Borges
Um artista maranhense pouco conhecido, mas já fez muitas músicas boas. O conheci pessoalmente há 20 anos atrás e não me decepcionei.
"Abandonados Pelo Sistema" - Tribo de Jah
Sou suspeito pois gosto muito de reggae. Se alguém ainda não sabe, a palavra "Babilônia" ou o adjetivo "babilônico" é, no liricismo da música reggae, um sinônimo da "rat race", da selva de concreto e principalmente de qualquer sistema que falha os seus cidadãos. A origem do uso é da passagem do antigo testamento em que os judeus são mal tratados na Babilônia. Todos os membros da banda são cegos, exceto o vocalista. Mas olham para o país melhor do que muita gente.
"Triste Partida" - Patativa do Assaré
Essa não é uma música adaptada aos gostos e ouvidos contemporâneos, mas ela tem uma importância histórica que se manifesta ainda hoje. Esse vídeo mostra bem o impacto dessa música nas pessoas descritas (e digo isso também por ter pessoas na minha família com história e reação semelhantes)
"Zé do Caroço" - Leci Brandão
Sigo esperando o nascimento de um novo líder. Enquanto isso, continuamos com a nossa programação normal.
"Vida de Negro" - Dorival Caymmi
Há 200 anos. Há 50. Há 1. Mas espero que, no fundo, não seja atemporal...
"Que País é Esse" - Renato Russo
Em minha muito pessoal opinião, a melhor música do rock nacional até hoje. Instrumental, letra e interpretação formam um perfeito combo. Sem medo de ser política e de pôr dedo nas feridas, escrita antes mesmo da constituição democrática de 88, mas parece que foi escrita semana passada. Talvez até mais do que na época.
"Admirável Gado Novo" - Zé Ramalho
"É o Brasil!..."
"A Cidade" - Chico Science
Chico Science, à primeira vista, não é um cara que estava fazendo um som para as massas e as rádios. Mas, milagrosamente, as mesmas o abraçaram (em parte). E isso é bom. Trata-se de um gênio que foge completamente do formato esperado, especialmente da época que se lançou.
"Aluga-se" - Raul Seixas
Desde os conluios da colonização, vindo da campanha d"O petróleo é nosso", passando pelas políticas dos anos 90 até chegar às sacanagens da copa do mundo recente, essa música não morre não pra mim.
"Asa Branca" - Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira
Um clássico e uma grande obra. O desespero da família que perde tudo por uma seca. Pus uma versão interpretada por Geraldo Vandré.
"Roda Viva" - Chico Buarque
Sempre interpretei essa música como o autor pensando nos amigos que morreram, se exilaram ou desapareceram. E o questionamento sobre se há motivos para se ter esperanças e agir, ou se só resta tristeza diante das dificuldades que se apresentam. Outra do autor que merece menção honrosa é "Construção". Difícil escolher uma.
"Coração de Estudante" - Milton Nascimento
Certa feita, Elis Regina disse que se Deus tivesse uma voz, seria a de Milton Nascimento. Aberto à divergência de opinião, mas essa música talvez não. Originalmente a melodia se chamava "Tema de Jango", pois foi feita em homenagem a João Goulart, o presidente deposto em 1964. Depois a letra surgiu, e foi inspirada pela história em torno do estudante Edson Luís. Tancredo Neves chegou a declarar que era sua música preferida (e ele morreu apenas dois anos depois do lançamento). Por isso, com a morte deste, a mesma se tornou uma espécie de hino da campanha de redemocratização do país, e tocou muito nas homenagens à sua despedida. Ressalta-se, porém, que ela valeria como uma grande música mesmo sem a associação a esses contextos.
"Até Quando?" - Gabriel Pensador
Um berro sobre a apatia brasileira em todas as esferas da sociedade.
"Opinião" - Nara Leão
Nara Leão mandando um recado bem claro numa época bem escura.
"Pra não dizer que não falei das flores" - Geraldo Vandré
Vandré parece ter criado uma música "larger than life" com essa composição. Ele sumiu um tempo depois e parou de cantar e compor com a mesma frequência. Muito se especulou, numa era anterior à internet, que havia sido torturado até ter ficado mentalmente abalado. Ainda vivo, mesmo se recluso, ele nega tudo. A canção ficou para a eternidade.
Bom, acho que por ora já chega. Tem alguns sambas do Bezerra da Silva e alguns raps do Emicida e outros que tenho certeza que colocaria nessa lista mas o sono tá batendo e afetando a memória... Fiquem à vontade para acrescentar.
E vocês, /Brasil? Que músicas mexem com as mazelas brasileiras ou com pedaços dolorosos da sociedade ou da história para você?
Vou acrescentar mais ao posto segundo as recomendações e sugestões (com o devido crédito).
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2015.04.17 23:39 gutoprica Um Deus que ama a beleza.

“Ele fez tudo apropriado ao seu tempo”. Ec. 3:11.
“Uma coisa pedi ao SENHOR; é o que procuro: que eu possa viver na casa do SENHOR todos os dias da minha vida, para contemplar a bondade do SENHOR e buscar sua orientação no seu templo.” Sl. 27:4.
Tudo o que Deus criou é bonito! Nada no Universo é sem cor, forma ou estilo. Ele transforma cinzas em beleza. Ele é o “Cântico dos Cânticos,” o “Oleiro,” o “Senhor da Beleza”. Ele é belo. As Artes revelam o Criador através da Música, palavras, cores, Design, equilíbrio, movimento, harmonia, ritmo. Davi disse que as estrelas cantam a glória do Senhor e existem físicos, hoje, que acreditam que é bem possível que os planetas vibram em perfeita sintonia. No sétimo dia da criação, Deus descansou. Não devemos pensar nesse descanso em nível de cansaço comum, porque Deus não sofre de fadiga. Devemos pensar nesse descanso como um tempo para contemplar a beleza da criação, saborear a qualidade de tudo o que Ele criou. Os atributos de Deus revelados através das Artes são: beleza, descanso e celebração. O propósito de Deus para essa área é nos renovar e nos restaurar, proporcionando-nos alegria pelo nosso trabalho.
Sou um artista cristão ou um cristão que é artista?
Os artistas cristãos de hoje em dia têm muita dificuldade para compreender o propósito de seus talentos. Se sua obra não fala diretamente sobre Jesus, ela ainda tem algum valor? Eles devem ou não trabalhar em produções com não-cristãos? Quando alguns vêem uma construção magnífica, ou uma pintura, uma peça teatral, ou um espetáculo maravilhoso, eles tendem a perguntar se a produção foi realizada por cristãos, como se isso validasse a beleza. Porém, a beleza em si já é um atributo de Deus. Colocar um adesivo escrito Jesus sobre as coisas, não as tornam mais bonitas. Pregar o Evangelho pode ser bonito, mas, a beleza, não traz uma mensagem adicional necessariamente. Podemos ter arte e beleza nas igrejas, mas a arte não tem de estar diretamente relacionada com uma expressão eclesiástica, para poder revelar Deus.
Qualquer coisa, incluindo tipos de música, notas musicais ou instrumentos podem ser utilizados para o bem ou para o mal. Não existe algo como notas musicais demoníacas, ritmos ou instrumentos demoníacos. Satanás não é o dono de nada disso, assim como ele não é o dono da lua, dos cogumelos ou das cores. Tudo é criação de Deus. Qualquer coisa que Deus tenha feito pode ser usada para adorar Satanás, mas também, pode servir para revelar Deus. Temos a tendência de achar que as músicas antigas são mais espirituais e que qualquer coisa muito moderna se torna suspeita, ou então, má. Obviamente, isso tem mais a ver com gosto pessoal que com Deus. Nós escutamos satisfeitos, os bonitos hinos luteranos, pois, eles revelam virtudes espirituais. O que a maioria de nós não sabe, é que Lutero colocou letras cristãs nas músicas favoritas dos bares da época. Eu queria saber o que os cristãos alemães daquele tempo pensaram dessas músicas populares sendo usadas pela igreja.
As Escrituras revelam três temas na Música
Ao estudarmos artes e música nas escrituras, encontramos registrados três temas: adoração, é claro, canções nacionais ou políticas e canções de amor. Uma canção de amor ganhou um livro inteiro – Cantares de Salomão. Atualmente, adoração, hinos, louvor e salmos são todos considerados importantes, mas, perdemos a capacidade de celebrar o amor humano e o amor pela nação. Se observarmos os hinos nacionais do mundo todo, você vai perceber que a grande maioria deles, escritos antes de 1970, mencionam Deus e Suas bênçãos. Até o Século passado, era entendido que Deus está envolvido na vida política de uma nação, até que algumas nações começaram a remover de seus hinos essas referências a Deus.
Será que foi por causa da secularização do país ou por causa da igreja, que perdeu a compreensão da atuação de Deus na área Política? Onde estão as canções de amor? Nossas ondas sonoras estão abarrotadas com mensagens de amor que são, no mínimo, degradantes ou lascivas. Porém, quando um músico que seja cristão escreve e apresenta uma bela celebração de amor humano, nós o acusamos de estar sendo “secular” ou de não estar sendo fiel à sua fé, não apresentando Jesus. As Escrituras celebram todos esses temas da Música e os usam para revelar Deus.
Se definirmos ópera como uma história em forma de música, então em Dt. 32, Moisés nos apresenta uma ópera muito antiga, senão a primeira a ter sido criada. Esse impressionante líder político entendia tanto a importância da Música na vida de uma nação que, ao final de sua vida, compôs uma obra que continha princípios importantes a serem lembrados por seu povo. E Moisés recitou as palavras desta canção, do começo ao fim, na presença de toda a assembléia de Israel…
As disciplinas das Artes
Assim como a Ciência, Deus governa as Artes por meio de Leis que regem cada disciplina: leis de Estética, Harmonia, Ritmo, Dissonância, Cor, Forma, Design, Estilo, Espaço positivo e negativo. Seja na Dança, na Escultura, na Pintura, na Literatura ou na Composição Musical, todos os artistas compreendem que existem princípios através dos quais cada uma dessas disciplinas funciona. Dominar esses princípios é fundamental para obter habilidade. Talento, então, é fazer esses princípios desaparecerem em meio à expressão artística. Pessoas “não-salvas” criam coisas belas porque são feitas à imagem de Deus. O único problema, é que elas não se dão conta de quem é a fonte de seu talento ou de seu amor pela beleza. Eles não conhecem quem lhes deu seu talento, mas, ainda assim, seu talento celebra Deus. Eles não sabem a quem agradecer. Mas, o fato deles conhecerem, ou não a Deus, não muda a beleza de suas criações. Nem palavras em Hebraico podem tomar uma melodia mais bonita. A beleza tem um valor intrínseco, ta! como a extensão da natureza e do caráter de Deus.
Morno
Muito daquilo que hoje chamamos de Música e Arte cristãs, é, no mínimo, medíocre. Talvez, porque pensamos que a única coisa que importa é se essas falam sobre Deus. E importante apresentarmos a mensagem de Cristo. Contudo, é tanto um absurdo quanto um perigo, pensarmos que a única coisa que importa num cirurgião é o seu amor por Deus e que sua técnica em cirurgia não é relevante. O coração do indivíduo e a destreza de uma profissão são duas coisas diferentes e Jesus é Senhor sobre essas duas coisas. Como pessoas que cremos no Deus Criador, você e eu temos de valorizar tanto a prática quanto a postura correta diante Dele. Temos de celebrar a beleza pelo próprio valor dela, porque Ele é o Senhor do Belo, o Criador de todos os dons, e também, temos de promover o relacionamento do artista com Cristo, o Criador de seu talento.
Não existem tribos, nações ou culturas que não tenham Arte, Música ou Esportes. Beleza, canções e celebração existem antes da Humanidade. Eram expressos em Deus, antes de existirmos e até hoje O revelam. Não precisamos justificar o nosso amor pelos Esportes ou Artes como uma oportunidade para evangelismo. Podemos ou não achar isso apropriado. Não há problema em desfrutarmos dos dons e talentos dados por Deus somente pelo seu valor natural. E uma forma de adoração ao Criador.
Temas para procurar quando você estiver estudando e colorindo o que as Escrituras dizem sobre Artes e Entretenimento: música, design, esportes, dança, cultura, vestuário, poesia, literatura, destreza, cores, esculturas e beleza.
A área das Artes e Entretenimento revela: o Cântico dos Cânticos, o Oleiro
O principal atributo de Deus revelado através das Artes e do Entretenimento: Beleza
Deus governa essa área através: das Leis de cada disciplina
Quer você tenha talento usando seu corpo, ouvidos ou olhos, seu talento é uma celebração de Deus e uma parte do Seu chamado em sua vida. Fomos criados para celebrar Beleza e Alegria, como também, para precisar delas. Você é parte da resposta de Deus para essa necessidade. Tudo que Ele criou, quer no micro ou no macrocosmos, é belo e foi criado com som. Então, esteja você celebrando através do trabalho da igreja ou ministrando para os não-crentes, você está servindo a Cristo. Você e testemunha Dele através de suas habilidades e de sua vida. Você não precisa justificar o seu talento, fazendo material religioso ou ajoelhando em oração quando se sair bem, apesar de poder fazer os dois. Seu talento é justificado por ser parte da natureza e do caráter de Deus em você. E parte de quem Ele é e de como Ele fez você. O talento que você tem revela Deus. O mundo precisa de seu talento e da celebração da Beleza e da Alegria que Ele traz. Não impeça o seu talento de fluir. Vamos começar a Nova Renascença.
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